sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O próximo orçamento


Não devemos iludir a situação. As nossas contas estavam e estão catastróficas e a nossa liberdade, enquanto país soberano, estava e continua ameaçada. Não nos enganemos com a possibilidade de um caminho que mantivesse a anterior situação e que nos permitisse continuar a viver como até aqui, apesar do défice do Estado e da fragilidade da economia. Perante este quadro, se fôssemos governados por políticos sensatos, moderados e conhecedores do país, o passo essencial teria passado por quatro pontos.

Em primeiro lugar, dizer, logo no início, toda a verdade, de forma clara e distinta, às pessoas sobre a situação e explicar, também com clareza, como é que se chegou onde se chegou, custasse a quem custasse. Em segundo lugar, explicar as consequências de não se fazer nada e tornar evidente a necessidade de um pacto entre todos para um esforço que lembraria o esforço de uma economia em tempo de guerra. Em terceiro lugar, assumir uma posição de firmeza negocial perante os delírios terroristas da troika (claro que havia margem de manobra, pois todos têm medo, já que ninguém sabe o que aconteceria à Europa, inclusive à Alemanha, se um dos países do sul entrasse em bancarrota). Em quarto lugar, desenhar uma política de compromisso nacional onde ficassem claras duas coisas: 1. a justa distribuição de sacrifícios por todos, ricos ou pobres, trabalhadores ou empresários; 2. o programa a ser executado, com uma avaliação autêntica das suas consequências e dos seus resultados.

Portugal tem a infelicidade de ser governado por um conjunto de gente impreparada e fanática. Gente que preferiu e prefere a mentira à verdade. Gente que, em vez de pugnar por um pacto entre os portugueses, decidiu fazer uma autêntica guerra civil, rebaixando pobres, submetendo trabalhadores e humilhando a classe média. Gente que, em vez de representar Portugal perante a troika, se tornou o agente da troika contra os portugueses. Gente que, no seu fanatismo ideológico, não soube nem sabe o que é o compromisso e a justa medida, que escolheu os ricos contra os outros, gente que não está interessada na compreensão e avaliação da sua acção.

Se não tivesse sido assim, talvez o próximo Orçamento de Estado fosse um momento de viragem e um estímulo para uma sociedade mais livre, dinâmica, coesa socialmente, a dar passos na sua recuperação. Com o actual governo, o Orçamento vai continuar a ser um poderoso instrumento de guerra dos fortes contra os fracos e um dispositivo para dividir ainda mais o país. Passadas as eleições autárquicas, o Orçamento virá mostrar que a guerra não tem fim à vista.