sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cadernos do esquecimento 7- A complacência


Continuação da recuperação de textos do meu antigo blogue averomundo, retirado de circulação. Este texto pertence a uma série denominada cadernos do esquecimento. Texto de 17.09.2009.


A complacência com os outros ou a mais completa indisponibilidade para a sua compreensão têm uma origem comum, a autocomplacência. Mas a autocomplacência não deve ser entendida como benevolência ou benignidade perante si mesmo. Todos temos o dever de ser benévolos e benignos connosco, mas não complacentes. A autocomplacência deve ser entendida como uma condescendência consigo, num suportar com indiferença o que em si deveria ser insuportável. Foi através dela que me descobri radicalmente português. Isso não significa uma legitimação da minha autocomplacência, apenas me integra numa comunidade de atitude, apenas me dá uma família de gesto. A indiferença com que suporto o que em mim deveria ser insuportável dissolve o padrão que me leva a considerar como insuportáveis certas coisas. A indiferença é uma estratégia de dissolução do elevado e da produção de condescendência com o que não merece benevolência. A indiferença produz a remitência do irremissível. Sempre fiquei seduzido por uma das ideias centrais da ética kantiana, nomeadamente na Fundamentação da Metafísica dos Costumes. A ideia da natureza irremitente da razão. Temos o dever de não condescender connosco, o dever exige, sem remissão possível, a nossa absoluta submissão. O meu fascínio nasce precisamente da minha natureza inclinada à remitência de mim mesmo. Por isso sou com os outros, o mais das vezes, completamente complacente e, ao mesmo tempo, completamente indisponível.