quinta-feira, 8 de maio de 2014

A História não dorme

Salvador Dali - Desintegración de la persistencia de la memoria (1952-54)

As sondagens mostram que os grupos de extrema-direita vão ter um bom resultado e em França e na Holanda deverão ganhar, o que os torna potencialmente na mais poderosa força política do próximo parlamento. (Público)

O que estamos a assistir poderia encontrar explicação no título do quadro de Salvador Dali. Literalmente, estamos perante a desintegração da persistência da memória. Enquanto a memória viva dos horrores do século XX persistiu, as políticas europeias foram cuidadosas, evitaram extremar-se do ponto de vista económico e apontaram sempre na direcção do equilíbrio dos interesses, naquilo a que se convencionou chamar o pacto social-democrata. A partir dos anos 70 do século passado a memória começou a turvar-se. Foi um processo relativamente moroso, mas que recebeu um estímulo impensável com a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética. A partir daí, os agentes políticos e os interesses económicos pensaram que tinham entrado num admirável mundo novo. Estavam, enfim, livres da persistente memória que vinha acumulando pavorosas recordações desde os finais do século XIX até ao final da segundo guerra mundial. Entregaram-se, então, à destruição dessa memória e, ao mesmo tempo, recomeçaram o jogo, há muito interrompido, da mercantilização da sociedade. Só os ricos contam agora. Tudo, mas mesmo tudo, perdeu valor ou dignidade e passou apenas a ter um preço cuja verdade é ditada pelo mercado. Se uma memória  humana persistente pode ser desintegrada pelo fetichismo do mercado, a História, todavia, está longe de ser uma deusa benévola e cordata, mesmo se a tentam enfeitiçar e perante ela exibem grandes e deslumbrantes fetiches. Aquilo que estava a dormir voltou. Está em força na Ucrânia e prepara-se para entrar, agora em grande estilo, no Parlamento Europeu. Como Deus, a História não dorme.