sexta-feira, 23 de maio de 2014

Devemos votar?


Domingo haverá eleições europeias. Os candidatos desesperam na solidão a que foram abandonados e os eleitores sorriem com condescendência de uma campanha sem tino nem relevo. Por um acaso, tenho estado a ler um romance que merece leitura e meditação de todos, pois ajuda-nos a compreender a natureza do poder, de qualquer poder. Trata-se de Wolf Hall (assim, na tradução portuguesa) de Hilary Mantel. É uma obra de 2009, muito premiada, e que se inscreve no género do romance histórico. A intriga passa-se no tempo de Henrique VIII, de Inglaterra, e tem como personagem central Thomas Cromwell. O que merece meditação não será tanto o talento de homens como Cromwell, Wolsey ou More, mas o arbítrio do Rei, um arbítrio quase sem controlo. Ali observamos o poder nu e na sua verdade, na forma como se pode abater sobre qualquer um e suprimi-lo.

Dirá o leitor que estamos já muito longe do século XVI, que os governantes de hoje não dispõem do arbítrio dos reis absolutos, que vivemos em tempos menos bárbaros e que, pelo menos na Europa, já não se aprecia o espectáculo de ver cabeças a rolar no cadafalso. Será verdade, mas apenas uma verdade parcial. Os tempos estarão mais civilizados, mas a essência do poder não se alterou, nem se alteraram os desejos e anseios dos homens que ocupam esse poder. Não mandam matar, saem do poder se são derrotados nas eleições, parecem pessoas cordatas. Isso acontece, todavia, porque a consciência dos cidadãos cresceu e foi limitando a acção dos governantes. Contudo – e Portugal é um exemplo muito claro disso – seja qual for a área onde tenham liberdade, os detentores do poder não hesitam em impor a sua vontade e os seus interesses, mesmo que isso implique o mal para muita gente.

Foi porque nós cidadãos não prestámos atenção a esta liberdade dos governantes e não a limitámos pela lei que estamos na terrível situação que é a nossa. A solução não é voltar as costas à política e fazer de conta que as eleições nada têm a ver connosco. Isso apenas reforça o poder arbitrário das elites políticas e diminui a capacidade dos cidadãos em controlar a acção dos agentes políticos. Devemos votar, devemos exigir um maior limite à acção dos governos e uma maior transparência na prestação de contas. O problema de Portugal não está no tamanho do Estado, mas no excessivo poder que os governantes possuem. Chegou o tempo em que os eleitores não podem ser ingénuos, ora votando no partido do coração (como se fosse um clube de futebol), ora desistindo de ir votar. Devemos usar o voto como uma arma para limitar aqueles que detêm o poder, sejam eles quem forem.