sexta-feira, 2 de maio de 2014

E agora?

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Este último artigo sobre o 25 de Abril visa o depois, não a história que sucedeu nos últimos quarenta anos, mas o depois que está em marcha neste momento. Podemos começar com um problema: o rumo do país ainda se insere no 25 de Abril? Se olharmos as comemorações deste ano, descobrimos duas respostas. A ausência dos capitães de Abril das comemorações oficiais diz-nos que não. O facto de o primeiro-ministro ter usado, nessas comemorações, um cravo vermelho na lapela diz-nos que sim.

O dia 25 de Abril representa, na verdade, uma abertura do país a múltiplos caminhos. O actual – a construção de uma sociedade liberal – fazia parte desses caminhos. Por muito que não se goste, ele ainda é um florescimento do 25 de Abril e inscreve-se nas possibilidades então abertas. As opções políticas tomadas são legítimas, pois foram sufragadas pelos eleitores e são controladas institucionalmente e pela opinião pública. Resultam da liberdade de escolha que o 25 de Abril instituiu, de forma ampla e séria, pela primeira vez em Portugal. Negar isto pode ser consolador, mas substitui o exercício da razão pelo ressentimento.

Este tipo de negação prende as pessoas a um conflito ilusório entre as políticas actuais e aquilo que imaginam que foi – ou deveria ter sido – o caminho do país. Esse passado real ou ideal acabou. Está morto. Essas possibilidades abertas pelo 25 de Abril estão consumadas e encerradas. Há que olhar para as possibilidades que se abrem a partir da realidade que vivemos e não daquela que gostaríamos de viver. Isto significa que não há alternativas às actuais políticas? Não, significa antes que é preciso pensar novos caminhos, caminhos que entrelacem a crescente liberalização das sociedades e os processos de equilíbrio social e de solidariedade interclassista e intergeracional.


Significa ainda que precisamos de aprender uma nova e mais exigente atitude onde se inscreve a vertente competitiva e a vertente solidária. Precisamos de pensar a sociedade como um conjunto de redes de indivíduos autónomos, mas ligados entre si. Precisamos de compreender os limites da intervenção do Estado nos processos de solidariedade e descobrir novas formas de a instituir. O novo caminho que Portugal está a seguir – uma das portas que Abril abriu – pode ser amaldiçoado, podemos sentir traição nele, mas nada disso é essencial. O importante é pensar e agir para, nestas novas circunstâncias, tornar a sociedade portuguesa, ao mesmo tempo, mais competitiva e mais justa. Isso dá que pensar, o que nem sempre gostamos de fazer. Mas poder fazê-lo foi outra das portas que Abril abriu.