quinta-feira, 15 de maio de 2014

O amor à novidade

Paul Gauguin - O que há de novo?

Os marinheiros - diz ele - não gostam de nada que seja novidade.
- Nem ninguém - dissera ele. Tanto quanto sei.
Não pode haver novidades em Inglaterra. Pode haver coisas antigas com uma nova apresentação, ou coisas novas que finjam ser antigas. (Hilary Mantel, Wolf Hall)

Este diálogo - um diálogo ficcional - pertence ao início do século XVI, quando se aproxima a queda do poderoso cardeal Thomas Wolsey, incapaz de dobrar o Vaticano ao premente desejo de Henrique VIII em desfazer o casamento com Catarina de Aragão e, assim liberto, poder desposar Ana Bolena. Estamos na antecâmara dos tempos modernos, os mercadores exercem já uma considerável influência social, mas o gosto pela novidade parece ainda não se ter instalado. Pode-se sempre suspeitar que este desprezo pelo novo é um reflexo do Renascimento e da desenfreada paixão pelas antiguidades, pelos clássicos greco-latinos. Estamos ainda longe - mais de um século - da célebre querela, ocorrida em França, entre os antigos e modernos. Este temor pela novidade, todavia, é um sentimento mais profundo que as disputas artísticas sobre os modelos a seguir. 

Teme-se que a novidade seja um desarranjo do mundo, a introdução de um princípio caótico que ameaça destruir o cosmos. Mesmo o nascimento de um filho não é sentido como o advento do novo, mas como a continuação do passado, através do reforço de uma linhagem, seja esta nobre ou plebeia. A novidade é, genericamente, temida pelas culturas tradicionais. O intenso ardor pela novidade só pode ter sido obra de mercadores ávidos de encontrar novos mercados e assim poderem enriquecer. A novidade, na verdade, é filha da cupidez. É esta que move o mundo e que conduz ao frenesim pela busca do novo. Nunca pensamos o suficiente sobre a vitória do espírito mercantil. Protestamos quando o nosso mundo se desarranja e a nossa vida perde o sentido e a solidez que julgámos um dia ancorada na ordem das coisas. Esse, porém, é o preço a pagar pelo amor à novidade e pela vitória do espírito mercantil.