segunda-feira, 26 de maio de 2014

O caso Marinho e Pinto

Igor Palmin - Old Tallinn, Estonia (1983)

O grande vencedor da jornada eleitoral de ontem foi o ex-bastonário da Ordem dos Advogados Marinho e Pinto. A sua eleição releva algumas linhas de força da situação política actual, as quais merecem atenção. Vale a pena salientar dois pontos.

Em primeiro lugar, esta eleição indica a grande erosão das partidos tradicionais e a emergência, em Portugal, de fenómenos políticos de grande intensidade gerados pela situação de pós-democracia em que vivemos. O facto de a democracia se ter tornado virtual, pois os eleitores estão convencidos de que a possibilidade de políticas verdadeiramente alternativas deixou de existir, abre o caminho para o voto em personagens estranhas ao fenómeno político, embora com presença mediática. É um voto refúgio gerado no desconsolo e num protesto que não se quer comprometer. É um voto pós-moderno numa pós-democracia. Mas este é apenas um lado da questão. Há outro e mais interessante.

A eleição de Marinho e Pinto é sintoma de que o país começa a ficar maduro para outra coisa. Não partilho da ideia propalada de que Marinho e Pinto seja um populista. Tem formação jurídica e política sólida, conhece bem os mecanismos do Estado de direito e parece-me prezar autenticamente os mecanismo democráticos. No entanto, há no estilo pessoal algo que surge aos olhos do público como sendo de natureza justicialista. Não é que ele o seja, mas tem, pelo discurso e pela forma como exprime esse discurso, essa aparência. Ora a sua eleição mostra que começa a haver mercado para gente mais truculenta. Não sendo Marinho e Pinto propriamente um populista, a sua eleição é o signo de que em Portugal começam a estar reunidas condições para a emergência de populismos de direita radical. A natureza invertebrada do voto pós-moderno em Marinho e Pinto pode ser apenas o prelúdio de uma metamorfose nos afectos do eleitorado. E se as coisas forem por aí, não será a faceta Marinho e Pinto racional e estruturada juridicamente que os eleitores procurarão, mas a faceta do verbo fácil e da palavra cortante, aquela que diz as verdades como quem crava punhais. Alguma coisa mudou no panorama político português.