quarta-feira, 28 de maio de 2014

O espectáculo socialista

Max Ernst - Oedipus Rex (1922)

Lembremos uma trivialidade que toda a gente tende a esquecer. A política não é o lugar da moral e os homens políticos só recorrem à moral se isso for útil. O que está em jogo na vida política é apenas uma coisa: conquistar e manter o poder. Todo o resto é acessório, incluindo os denominados interesses do povo. Para um político, qualquer que ele seja, os interesses da comunidade valem tanto como a moral. Se servirem para conquistar e manter o poder, muito bem. Caso contrário, não valem um cêntimo. Nada disto é novo. Sempre foi assim e desde Maquiavel se tem consciência de que a política é isso e nada mais.

Por isso, não vale a pena que o cidadão comum moralize a luta fratricida dentro do Partido Socialista. Nós cidadãos comuns estamos de fora e seria um grave erro perder o espectáculo com considerações de ordem moral. Os militantes socialistas apoiantes de Seguro terão razão para moralizar a situação, para falar em golpe imoral de António Costa. Mas essas palavras não representam qualquer consciência moralmente virtuosa, mas uma estratégia política do actual líder socialista e dos seus apoiantes. O eleitor comum tem tudo a ganhar com esta guerra. Caso não seja resolvido na secretaria, o conflito tornará a liderança dos socialistas mais forte, o que ampliará o leque de escolhas dos eleitores no mercado eleitoral. 

Desfrutemos a tragédia - ou será uma comédia? - que assola as hostes socialistas, a luta entre o actual incumbente - aquele rapaz com aspecto de sacristão que ameaçava o governo com abstenções violentas - e o velho pretendente - raposa batida na luta de gladiadores. É sempre um belo espectáculo ver as pretensões pessoais postas em jogo, observar os golpes que os adversários darão um ao outro, descortinar a vontade dos deuses e a forma como estes estão decididos a proteger ou a punir um dos oponentes. Nestes momentos de luta política, o pior que o homem comum poderá fazer é olhar o combate político a partir dos olhos da moral. O que, para nós, está em jogo é a qualidade estética do espectáculo, o prazer que ele nos pode dar. Veremos se os actores estarão à altura das expectativas e das pretensões que acalentam no fundo dos seus desmesurados egos.