sábado, 3 de maio de 2014

O orgulho da autonomia

Rodney Smith - A. J. on Ladder (1994)

Ouvido e não ouvido, respondeu Bjartur. Não posso negar que não tenha ouvido rumores acerca daquela trapalhice das associações. E fizeram-me uma visita na Primavera com esse intuito. Mas até agora tenho tido por hábito reger-me de acordo com as minhas ideias e não por aquilo que os outros me dizem, mesmo que se trate daqueles dois de Rauðsmýri. (Halldór Laxness, Gente Independente, p. 237)

A leitura do romance de Halldór Laxness é um momento de confronto com uma virtude social que é débil em Portugal. Bjartur, o protagonista da obra, é o protótipo da independência. Toda a sua luta tem por finalidade construir uma vida, para si e para os seus, em que não haja dependência de terceiros, seja de indivíduos ou de instituições, como a paróquia, no caso do romance. Este espírito de autonomia torna as comunidades mais exigentes e o jogo social mais transparente. Um espírito de independência é o fundamento do controlo do poder político por parte dos cidadãos e da autonomia e liberdade da própria comunidade política.

O facto desta virtude ser muito débil em Portugal tem-nos conduzido a múltiplos momentos como os que estamos a viver ou a regimes ditatoriais como o foi o Portugal do Estado Novo. Hoje em dia, está na moda a crítica à excessiva dependência das pessoas relativamente ao Estado social. Esse, porém, é apenas um aspecto de algo muito mais grave. A própria sociedade está presa numa teia de dependências de natureza feudal, na qual os vassalos prestam homenagem e tributo ao soberano, ficando assim na sua mão, embora não seja já muito claro quem é o soberano e quem é o vassalo.

Esta teia de relações de dependência - teia tecida pelos fios da política, da religião e da economia - é um jogo jogado por aqueles que possuem já algum peso social e algum poder de troca. Essa teia, porém, tem tido, ao longo da nossa história, um terrível papel. É nela que ficam presos ou outros, aqueles que pouco ou nada têm. É nela que eles aprendem a servidão e o espírito tão pouco liberal de dependência de terceiros. Enquanto os portugueses forem tributários do espírito de dependência, só podemos esperar a continuação indefinida do sarilho onde estamos metidos. Bjartur é um herói islandês. Talvez isso explique a forma como a Islândia lidou com uma situação tão aflitiva como a nossa. Portugal precisa de muitos e muitos Bjartur, de pessoas que afirmem o orgulho da sua autonomia e sublinhem a cada instante o desejo de ser independente.