quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sonhos lúcidos

Wassily Kandinsky - Small Dream in Red (1925)

Consta que, aplicando uma certa quantidade de energia eléctrica ao cérebro, o sonhador pode transformar um sonho - de preferência um pesadelo - num sonho lúcido (Público). Um sonho lúcido é aquele em que o sonhador sabe que está a sonhar e consegue controlar o próprio sonho, o que poderá levar a que evite, no sonho, certas situações dolorosas. A responsável pelo estudo alvitra a possibilidade de, no futuro, poder haver intervenções terapêuticas, nomeadamente nos sonhos pós-traumáticos. Certamente que as aplicações médicas serão interessantes e, eventualmente, beneficiarão os pacientes. 

No entanto, há neste conceito de sonho lúcido um desafio a crenças fundamentais do último século. A ideia de que o sonho pertence ao domínio do inconsciente, a esse domínio onde o eu não é já o eu, a esse lugar onde a luz da razão não penetra. A razão cartesiana - com a sua luz natural - volta-se agora, em busca de certeza e consolo, para dentro dos sonhos do homem. Alguém dado à ironia, e conhecedor de Descartes, diria que esta é mais uma tentativa para fornecer a Descartes um poder para discernir a realidade do sonho. A verdade, porém, é que este é mais um passo no controlo da realidade global do homem e um avanço na transformação da realidade humana. A aplicação da luz da razão ao homem acaba por lhe retirar o mistério que o envolve e torná-lo de tal maneira transparente que chegará a hora em que nada poderá esconder dos outros ou de si mesmo. Duvido que um estado de completa e total lucidez sobre nós e os outros seja uma coisa diferente da vida no inferno.