terça-feira, 27 de maio de 2014

Tempo de espera

Carlo Carra - A Espera (1926)

Um texto novo a intercalar nos textos dos cadernos do esquecimento provenientes do meu antigo blogue averomundo.

Se há uma coisa que devo ao curso de filosofia é o ter refinado a capacidade de me colocar de fora, tornar-me exterior, encontrar um lugar a partir do qual posso olhar e observar a trama que compõe a tragédia dos homens. A filosofia é um exercício de voyeurismo. Eu sei que colocar-se de fora não é virtuoso. Não faltarão actores - essa gente ansiosa e plena de energia produtora de acontecimentos - que verberarão aqueles que se dedicam ao vício da observação. Paciência, mas quem disse que a vida é um exercício virtuoso ou que eu pretendo cultivar as virtudes do mundo? Estar fora não tem qualquer vantagem relativamente ao estar dentro e comprometido com os negócios mundanos. O mal que atingir aqueles que estão comprometidos com o mundo atingirá também os que estão fora. Há, no entanto, um prazer específico do voyeur, o prazer de ver chegar a terrível tempestade, sabendo-se impotente para a travar. O prazer de observar aqueles que julgam evitar, pela sua estrénua acção, tempestades torná-las, a cada dia que passa, mais próximas. O prazer de saber que se está num tempo de espera, num tempo onde aquilo que foi o nosso mundo se desagrega e se prepara para desabar. O tempo de espera não é um tempo sem emoção nem acontecimentos. Pelo contrário, é a hora em que se vê os actores impotentes perante o destino, as instituições a arder, o mundo a tremer, mas que ainda não se sabe o novo mundo que nos espera. Da janela, o voyeur observa a sua casa a cair.