terça-feira, 28 de abril de 2015

O acaso e a liberdade

Embrião humano numa fase muito precoce do seu desenvolvimento REUTERS - Público

Até aqui os seres humanos eram fruto do acaso e da necessidade. A necessidade que se manifestava nas pulsões sexuais e o acaso representado na lotaria genética que conduzia a que um determinado espermatozóide fecundasse um óvulo disponível. Lentamente foram introduzidas algumas variações técnicas deste jogo sem que os frutos da árvore do conhecimento e os da árvore da vida se hibridassem. Consta que agora o passo para a hibridação foi dado e que se trabalha activamente na área de modificação do ADN embrionário. A técnica usada ainda é pouco eficiente, mas torná-la eficiente será apenas uma questão de tempo. Abriu-se o caminho - talvez ainda longo - para que seja possível que os novos seres humanos sejam concebidos segundo estratégias de design e de acordo com um processo de decisão racional. Poderemos pensar que a sensatez e uma certa inclinação conservadora acabarão por introduzir limites políticos ao trabalho na área da modificação do ADN embrionário. Esta área de investigação tem, todavia, um potencial económico e político de tal ordem que julgo ser do domínio da mera ilusão pensar que seja possível impedir este tipo de investigação e a sua transformação em tecnologia disponível no mercado. Estamos num momento decisivo da história da humanidade, mais importante que a queda do Império Romano, o Renascimento ou Segunda Guerra Mundial. Estamos a abrir caminho para a possibilidade de obter seres humanos correspondentes a modelos desenhados a priori e segundo o gosto dos progenitores. Mais do que isso, estamos a abrir caminho para que, um dia, se possa conceber uma ou várias espécies pós-humanas, umas sub-humanas outras sobre-humanas. Qual a potência que aqui se manifesta? Não, não é tanto a inteligência, mas a mais enigmática das potências que habitam o homem: a liberdade. A liberdade de escolha assente no domínio técnico do mundo e da vida. Onde antes se viu o papel do acaso e da necessidade manifesta-se hoje o império da liberdade. A inteligência é o instrumento dessa liberdade. Qualquer meditação ética sobre estes problemas não pode deixar de se confrontar com o sentido desta obscura potência.