segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Franco Nogueira, Salazar vol. 1 A Mocidade e os Princípios


Data de 1977, cerca de três anos após o derrube do regime político do Estado Novo, a publicação, pelo embaixador Franco Nogueira, do primeiro volume, de seis, da biografia de Salazar. Este volume tem por título Salazar Vol. I A Mocidade e os Princípios. O interesse desta biografia não reside  no facto de estarmos perante um historiador preocupado com a independência e a objectividade histórica nem de um especialista na narrativa biográfica. O seu interesse releva do olhar de alguém que foi não um mero compagnon de route, mas de um correligionário do ditador português, de cujos governos foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1961 e 1969. Apesar dos protestos de independência apresentados no “Esclarecimento” com que inicia a obra – É neste espírito, de absoluto desprendimento, de rigoroso exame das fontes, mesmo de gelado realismo, que concebi o relato do consulado de Oliveira Salazar. Não é obra de vitupério, nem de apostolado: busco a verdade, à luz dos factos e documentos (p. X). –, o leitor facilmente perceberá a simpatia com que a figura de Salazar é tratada. Seja como for, é um documento que merece leitura por quem se interessar pela História portuguesa do século XX. Franco Nogueira não foi um protagonista qualquer.

Este primeiro volume abarca o período que vai desde os finais do século XIX até ao 28 de Maio de 1926. Divide-se em cinco capítulos. O primeiro dedicado aos tempos de infância, no Vimieiro e em Santa Comba Dão, e aos do seminário em Viseu. O segundo capítulo abarca os tempos de estudante de Coimbra. O terceiro, o ingresso no professorado universitário e a sua afirmação enquanto docente. O quarto capítulo caracteriza a natureza doutrinadora do militante católico e o último retrata os primeiros tempos do regime nascido do golpe militar que pôs fim à primeira República.

Um dos motivos por que vale a pena ler a obra de Franco Nogueira reside no fresco que ele oferece dos tempos políticos que vão desde os último anos da Monarquia até aos primeiros tempos do Estado Novo, com especial atenção à primeira República. Nesta fase, há traços comuns aos três regimes e cuja descrição prepara uma possível explicação da emergência e consolidação de Salazar enquanto figura política central do Portugal dos anos trinta até aos anos setenta. Por um lado, o défice crónico das contas públicas, a difícil gestão dos dinheiros do Estado, a necessidade de viver de empréstimos das potências estrangeiras e a relutância destas. Concomitante ao descalabro financeiro é o pandemónio político. Naquele período, assiste-se à desagregação da monarquia constitucional, às tentativas sempre falhadas de estabilizar a primeira República (quarenta governos em menos de dezasseis anos) e, por fim, às enormes dificuldades sentidas pela ditadura do Estado Novo para controlar a situação emergente. Este é o pano de fundo que Franco Nogueira descreve e que, de forma subliminar, deixa perceber como causa que gera a resposta política encarnada pelo homem que veio de Santa Comba.

Encontrar-se-ão, na obra, múltiplos traços da formação pessoal e política de Salazar. Os aspectos pessoais, muito curiosamente, são descritos com uma linguagem paroquial, como se o autor quisesse através da selecção dessa estratégia linguística pintar o país e as relações sociais onde Salazar emergiu. Um dos traços centrais da narrativa é a equívoca relação com as mulheres. A ligação com a mãe, Maria do Resgate, tem um carácter de preocupação obsessiva e parece ter ocupado um papel relevante na vida do futuro ditador. Por outro lado, o biógrafo não se cansa de salientar a atracção que o jovem universitário exercia sobre as mulheres das classes altas de Coimbra, embora nenhuma dessas relações passasse de um domínio platónico. A linha narrativa de Franco Nogueira – e isso vai ser reforçado no segundo volume – é a de desmentir a ideia de que Salazar teria sido uma espécie de frade laico, dedicado aos negócios de Estado. Parece mesmo querer sublinhar o contrário, embora os elementos apresentados para construir essa imagem de um Salazar D. Juan sejam particularmente débeis.

Um segundo traço importante é o do militante católico, integrado no Centro Académico da Democracia Cristã, de Coimbra, e colaborador do jornal O Imparcial. É neste âmbito que nasce e se consolida a amizade com o padre Cerejeira, futuro Cardeal-Patriarca de Lisboa, e com muitos dos que vão ser seus amigos pela vida fora. A militância de Salazar escora-se na leitura das encíclicas de Leão XIII, dos textos de Charles Maurras e de Gustav Le Bon. A sua acção visa defender a Igreja Católica dos ataques da República, fundamentalmente dos sectores mais radicais. Apesar de ser simpatizante monárquico, as suas concepções políticas derivam em primeiro lugar do catolicismo e das preocupações da Igreja em integrar no seu seio as classes operárias, numa visão antagónica do marxismo e da luta de classes.

Um terceiro traço, focado por duas vezes pelo biógrafo, é o que está ligado à descoberta, por Salazar, da sua mais profunda e autêntica vocação. Numa conversa entre amigos, o universitário, num dos raros momentos de exposição do seu pensamento mais íntimo, confessa que sentia como sua vocação mais funda ser primeiro-ministro de um rei absoluto. Embora Franco Nogueira não faça a hermenêutica desta confissão, ela é fundamental. Não tanto porque prefigura a sua ambição – e a ambição é um dos traços mais salientes do carácter de Salazar – de ser um futuro ditador, mas do seu indeclinável afastamento dos valores da modernidade e do Iluminismo. O 28 de Maio vai abrir-lhe a porta para a realização dessa sua ambição, embora Salazar não tenha posto em causa a natureza republicana do regime. Limitou-se a ser primeiro-ministro de uma república autocrática.

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