quinta-feira, 20 de julho de 2017

A Flor Precária 12. Abre com a mão o portal do júbilo

Jeanloup Sieff - Queen, London, 1964

12. Abre com a mão o portal do júbilo

Abre com a mão o portal do júbilo,
o ritmo da palavra no pó do poema.
Sobre o peito, a cabeça inclinada,
um rio de sal no vendaval dos versos.

O cabelo de chuva escorre nos dedos,
água a arder na clareira da boca.
Fogos de Verão cantam-te nos lábios,
são larvas de luz na sombra do vento.

Dedilho a relva pura do teu corpo,
oiço o riso de lume na prosa da noite.
Uma serpente desliza em silêncio
e toca-te com o seu hálito de erva.

(A Flor Precária, 1979)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A arte

Berenice Abbott - Light through Prism, Cambridge, Massachusetts, 1958-61

Diferentemente do desvio angular da luz ao incidir num prisma, que pode ser calculado, o desvio sofrido pela luz ao incidir no homem não entra no reino da quantificação nem do cálculo. A relação do homem com a luz pertence ao domínio das coisas incertas. De tal maneira incertas que devemos evitar depositar alguma esperança no mero cálculo das probabilidades. Por isso, a humanidade inventou a arte. Para falar de si, da luz e das trevas.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Eternidade

Cecil Beaton - Three models dressed in Ladurée macaron colours, 1948

Há fotografias que nos devolvem de imediato a sensação de passado. O mundo que nelas vemos já se retirou. Outras, porém, têm uma dimensão metafísica. Mostram-nos a eternidade. Esta fotografia de Cecil Beaton seria um belo argumento para defender que, para lá do tempo, existe a eternidade. Não é que nela não se encontrem ostensivas marcas temporais. Encontram. Aliás, tudo o que nela vemos são marcas do tempo, objectos datados, pessoas que, provavelmente, já não estão entre nós. Contudo, olhamos e o que vemos - dado por um cuidado trabalho cenográfico - é algo que ultrapassa o tempo. Ali pousa, muito ao de leve, talvez como uma sombra, a eternidade. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Encenação da beleza

Rodney Smith - Two Women in Black, 1992

O que é a beleza? Esta é uma das perguntas a que se aplica a resposta dada, nas Confissões, por Santo Agostinho à questão o que é o tempo? "Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar, a quem me fizer a pergunta, já não sei." A beleza como o tempo parecem escapar ao regime da explicação. Dificilmente se deixam capturar por redes conceptuais e entrar no jogo da argumentação. Contudo, ao olharmos esta fotografia de Rodney Smith não podemos deixar de cair na tentação de falar sobre a beleza. 

Se me perguntassem qual o objecto desta fotografia, do que é que trata, eu diria de imediato que trata da beleza. É um ensaio sobre a beleza. Revela uma característica que não será condição suficiente para a explicar, mas que é, por certo, uma condição necessária. A beleza é encenação. Tudo aquilo que apreendemos como belo resulta de um trabalho, mais ou menos consciente, de cenografia. A beleza é assim o fruto de uma arte dramática. 

Somos então tentados a dizer que não há beleza sem a arte da dramatização e esta pressupõe o trabalho de um cenógrafo atento e cuidadoso. É isto que a fotografia nos mostra, ao ser ela própria o resultado da encenação da beleza. Qual é o corolário da conclusão a que se chegou? Não há uma beleza natural, se entendermos por natural a ideia de uma beleza espontânea, não dramatizada, não encenada. A beleza não é um dado ou um facto. É um processo, um tornar-se, um exercício de representação, em que a beleza para ser bela tem de ficcionalizar-se como tal.

domingo, 16 de julho de 2017

Versos e civilização

Santiago Rusiñol Prats - Alegoria da poesia (1895)

Meter equals verse, equals poetry, equals culture, equals civilization.
Charles O. Hartman, Free Verse, an Essay on Prosody, p. 6

A recepção hostil da poesia escrita em verso livre – isto é, em verso que não obedece às regras métricas de distribuição dos acentos tónicos e dos limites da dimensão do verso – levou a que muitos estudiosos da poesia considerassem a emergência do verso livre, em finais do século XIX e inícios do XX, não apenas uma aberração poética como, em última análise, um ataque à civilização. É isso que Charles O. Hartman sintetiza de forma irónica na frase citada em epígrafe. A frase tem o poder de, ao falar de versos e de poesia, nos mostrar aquilo que consideramos ser uma vida civilizada, a qual é sempre erigida em contraposição com a vida dos bárbaros.

A vida civilizada, se a perscrutarmos a partir da analogia com o verso, é aquela que tem uma certa medida, tal como os diversos tipos de versos tradicionais obedecem a certas medidas, as quais impõem um limite para o tamanho do verso. Esta concepção da civilização tomada em analogia com a métrica dos versos não deixa, porém, de obedecer a uma concepção moderna de civilização. Uma ideia que se liga de imediato à civilização é a de limite. Um ser civilizado é, contrariamente a um bárbaro, alguém que reconhece limites à sua acção e à satisfação das suas faculdades de desejar e de conhecer. Ser civilizado significa reconhecer que tanto o que pode desejar quanto o que pode conhecer é limitado. Esta ideia de limite é central na modernidade e, fundamentalmente, no Iluminismo e épocas subsequentes.

O carácter moderno deixa-se compreender, talvez ainda com mais intensidade, numa outra característica presente no verso metrificado, no verso não livre. Trata-se do próprio conceito de medida. A poesia estaria aberta a uma compreensão matematizante e quantificada através da escansão das sílabas poéticas. Escandir um verso é uma forma de medir o verso, de introduzir o cálculo e a quantidade nesse elemento que, na imaginação popular, está mais próximo de uma visão qualitativa do real do que de uma visão quantitativa. É esta ligação do verso à quantidade que permite, juntamente com a ideia de limite, que se estabeleça a analogia entre verso e civilização, isto é, aquilo que nós ocidentais modernos consideramos civilização. A vida civilizada do Ocidente tem no seu fundamento o cálculo e a quantificação. Basta olharmos para o peso que a economia tem, desde há muito, na vida social e política. Basta compreender que os sistemas políticos civilizados – isto é, as democracias – fundam-se na matematização das opiniões expressas em votos e, também, em sondagens.

No âmbito da analogia entre verso e civilização, podemos, agora, perguntar o que significa a emergência do verso livre, do verso que abandonou, na sua estratégia prosódica, o cálculo das sílabas poéticas e a ideia de limite do verso, isto é, que rompeu com as convenções anteriores. A primeira coisa que é possível compreender é que uma civilização – tal como um verso – está fundada em convenções. Assim como a métrica dos versos é uma convenção, a vida civilizada é também uma vida convencional, uma vida que adoptou certo tipo de convenções e que proscreveu outras. Isto tem um impacto muito maior do que se possa pensar. Significa que a civilização ocidental não é a civilização mas uma civilização possível entre outras. Tem as suas convenções diferentes de outras convenções adoptadas por outras formas de vida civilizada. O verso livre, ao relativizar os versos métricos, diz-nos, ao mesmo tempo, que a nossa civilização é meramente relativa, um modo de vida entre outros modos de vida possíveis e civilizados.

Uma segunda consequência do verso livre, se se continuar com a analogia entre verso e civilização, é que a ideia de limite ou de fronteira foi estilhaçada. Não é que os limites ou as fronteiras tenham deixado de existir. Tornaram-se, porém, mais difusos se não mesmo mais confusos. Curiosamente, foi isso que sucedeu no mundo desde o início do século XX (e o século XX começa, efectivamente, em 1914, com a Grande Guerra) até aos dias de hoje. Neste caso, o verso livre teve a capacidade de antecipar o destino da vida civilizada, onde as fronteiras entre civilizados e bárbaros, para recorrermos à distinção grega, se tornaram completamente porosas.

Onde a analogia parece não fazer sentido é na questão do cálculo e da quantificação. Se o verso livre trocou a quantificação métrica por outras formas de prosódia para a construção do ritmo e do sentido poéticos, a vida da nossa civilização continuou – aliás, tem-se assistido a uma intensificação – dependente do cálculo e da matematização da realidade. Se o ritmo de um verso já não é dado pela quantidade métrica, a vida civilizada depende, cada vez mais intensamente, de uma compreensão quantificada da realidade, seja esta qual for. Aceitando isto, poderemos dizer que a analogia, há muito intuída, entre verso e civilização falhou completamente. Ou então, uma possibilidade sempre atraente, pode-se afirmar que o verso livre se constituiu como uma profecia, acerca da nossa civilização, ainda não realizada, uma profecia que contém a ameaça do fim de uma vida dependente continuamente do cálculo e de uma interpretação quantitativa da realidade.

sábado, 15 de julho de 2017

A Flor Precária 11. A vida é um aquário de palavras

Autor desconhecido - Cleo de Merode, 1910

11. A vida é um aquário de palavras

A vida é um aquário de palavras.
Dentro dela, peixes, limos, pedaços
de mim a arder no fundo do teu corpo.

As palavras que te dei em Dezembro
trago-as nas águas deste aquário.
São tuas. E tuas, aquelas que invento
quando os sentidos se perdem em ti.

(A Flor Precária, 1979)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Da infância sem fim

Toni Schneiders - Fykesunds bru im Hardanger Fjord, 1959

A espécie humana é muito cansativa na sua previsibilidade. Basta dar um pouco de atenção a uma determinada personagem para que, sem grande surpresa, se consiga antecipar comportamentos. Fundamentalmente, os que são negativos. É preciso um certo refinamento para dissimular com eficiência o desejo de praticar o mal. E refinamento é coisa que está ao alcance de poucos. Para certas pessoas, a ânsia da maldade é tão grande que não conseguem deixar de semear sinais e pistas por todo o lado. E o mais interessante é que o fazem com uma infantilidade quase comovente. O que não é de todo um prejuízo para os outros. Seria bem mais grave que à propensão para o mal se aliasse a maturidade. Por norma, essas pequenas personagens maldosas que cirandam por aí são imaturas, uma espécie de crianças perdidas num mundo cheio de ameaças imaginárias, ameaças nascidas da sua incapacidade de crescer e tornar-se adulto. Ora a quantidade de adultos que, na verdade, nunca cresceram é desanimadoramente muito maior do que se pode pensar. A ideia kantiana de que o Iluminismo é a saída do Homem da menoridade choca com essa realidade. Nem as mais intensas luzes da razão têm o poder de fazer amadurecer parte significativa do género humano, de fazê-la atravessar a ponte que liga a infância ao estado adulto.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Declínio

Paul Huet - O abismo, paisagem (1861)

A notícia de que defensores ambientais estão a ser mortos ao ritmo mais elevado de sempre (ver aqui) é sintomática de que uma luta decisiva está acontecer. O que está em jogo nesse conflito é a possibilidade ou não de, num futuro próximo, haver vida humana sobre a Terra. A incompreensão que uma parte da humanidade ostenta relativamente à degradação ambiental e aos limites do planeta é um sinal de podemos estar a aproximarmo-nos do fim. Este fim não será já o resultado do declínio do Ocidente, segundo a profecia de Oswald Spengler, mas do declínio global da responsabilidade ética do humanidade. O abismo parece atrair, de forma cada vez mais decisiva, a humanidade e, dentro desta, os mais poderosos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Alma Pátria - 29: João Villaret - Cântico Negro (José Régio)



Hoje a Alma Pátria sai dos caminhos da canção e entra nos da declamação poética. A rádio in illo tempore passava poesia (hoje, penso que só a Antena 2 o faz). Recordo Villaret e também Manuel Lereno. João Villaret morre em 1961. Se olharmos para a capa do disco "João Villaret no São Luís" há qualquer coisa que é inconcebível. Em plena ditadura, um actor consegue encher um teatro apenas para ser ouvido a declamar poesia. Mais, esse mesmo actor tinha um programa semanal na RTP, de larga audiência, onde dizia os grandes poetas. Esse mundo acabou. Ainda David Mourão-Ferreira e Mário Viegas tiveram programas do género, mas tudo isso está definitivamente morto, no contexto cultural pós-moderno em que vivemos. A poesia tornou-se um assunto esotérico, onde os que escrevem se lêem uns aos outros, quando se lêem. No vídeo, um poema de José Régio, um poema que li muitas vezes e que ouvi também muitas vezes declamado pelo meu colega de escola e amigo Luís Filipe Pisco. Dizia-o bem, muito bem.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A desmedida


Volto a um dos meus temas políticos preferidos, o da educação do homem político. A raiz de toda a educação do candidato a homem político deveria ser a tragédia grega. Ela forneceria ao aspirante a político a possibilidade de uma meditação sobre os limites do homem e da sua acção. O resto - aquilo que hoje em dia parece ser fundamental - é mera informação e treino nas artimanhas dos jogos partidários. A tragédia tem o papel de nos dar a ver as consequências da desmedida (hübris). A némesis, a vingança dos deuses - isto é, da realidade - não deixará de ocorrer sempre que a desmedida se faz sentir na acção política.

Veja-se o caso do governo de António Costa e a desmedida - o optimismo e o contentamento exibido como uma humilhação dos adversários - com que ele se vinha comportando nos últimos tempos. A humildade que deveria ser a tónica de um governo assente num partido que perdeu as eleições e numa coligação inabitual foi, com os resultados do campo da economia, sendo substituída pela irresistível tentação de gerir a res publica como se o governo fosse constituído por heróis divinos acima dos mortais. A vingança dos deuses não se fez esperar e mostrou que a política não é só economia. Um fogo terrível, um roubo caricato e umas contas a ajustar com a justiça tornaram de imediato patente a natureza humana - demasiado humana e demasiado portuguesa - do governo.

Quer os políticos o creiam ou não, nada há pior para a sua carreira do que a desmedida. Muitas vezes, a hübris parece ser uma condição necessária para atingir os objectivos e triunfar sobre a concorrência. Na verdade, é uma artimanha para perder o herói. Sabemos também que a virtude da humildade não é coisa que tente os egos inflacionados daqueles que se dedicam à vida política. O contacto com o poder retira-lhes o discernimento dos seus limites e leva-os, como se isso fosse a coisa mais natural, a desafiar os deuses - isto é, a realidade. A factura muitas vezes não se faz esperar e mostra que os encargos de tal ousadia não compensam o prazer de se sentir deus por alguns instantes.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Flor Precária 10. Anoiteceu

Adolf Rossi - Towards a end of a day, 1950’s

10. Anoiteceu

Anoiteceu.

E a casa é uma sombra
de silêncio
no lago da noite.

(A Flor Precária, 1979)

domingo, 9 de julho de 2017

Fantasmas

Nicanor Piñole - Escuchando la radio

O pintor post-impressionista asturiano Nicanor Piñole (1878-1978) fez uma série de desenhos sobre o fenómeno da escuta do rádio. O que me prendeu a atenção foi o sentido arqueológico destes desenhos. Mostram o momento em que as famílias passam de comunidades de indivíduos a locais de convívio de solidões. A comunhão de um destino começa a dar lugar ao ensimesmamento. Solicitados pela voz vinda de fora, as pessoas acabam por reforçar a sua singularidade num processo de contínua estranhamento relativamente aos que lhe são próximos. Como todos sabemos, o processo foi-se intensificando com a televisão e, hoje em dia, com a internet e as redes sociais. O discurso que vem de fora torna-se uma muralha que separa cada um do seu próximo. A destruição das relações de proximidade dentro da própria família foi um passo decisivo para que a ideia de próximo, tal como emergiu no discurso de Cristo, começasse a perder sentido. O que está próximo já não é um ser humano, mas o fantasma trazido pela mediação de um qualquer dispositivo tecnológico.

sábado, 8 de julho de 2017

A concubina infiel

Arkady Shaikhet - Express train, USSR (1939)

Para onde se dirige, tão soberbo e ufano, o comboio expresso soviético? A fotografia de Arkady Shaikhet é um hino à ideologia dominante na URSS de então. Quem conhece um pouco da história dos séculos XIX e XX é levado a pensar, num primeiro momento, que o expresso se dirige para o futuro. O comboio que vemos não é um comboio mas um deus, Hermes ou, na versão romana, Mercúrio, que corre para cumprir a sua missão de mensageiro e anunciar ao mundo e ao futuro o triunfo do progresso, que há-de chegar envolto em fumo e metalomecânica pesada. No entanto, se olharmos a data da fotografia percebemos de imediato que o comboio apenas se precipita em direcção à segunda guerra mundial e à morte. A história é uma concubina infiel que nunca deixa de trair aqueles que a amam.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Três avisos e uma remodelação

A minha crónica no Jornal Torrejano.

A governação de António Costa começa a abrir brechas que só a actual inépcia da direita tem evitado que se transformem num enorme desgaste político. Em pouco tempo, depois da euforia em torno do défice, o país frágil que somos, do ponto de vista institucional, enviou três avisos. O menos importante foi a história do exame de Português do 12.º ano. O mais trágico está ligado aos acontecimentos de Pedrógão Grande. O mais simbólico da nossa fragilidade, o roubo de armamento em Tancos. Todos estes acontecimentos têm um denominador comum. As instituições são frágeis e parecem acometidas por uma doença que impede o seu regular funcionamento. Estes acontecimentos são politicamente muito importantes e revelam, melhor que o cumprimento do défice, o estado da Nação.

É irrelevante dizer que isso poderia acontecer com outro governo qualquer. Também não terá grande sentido dizer que a degradação das instituições vem de há muito. Os governos são empossados para cuidarem das instituições e assegurarem que elas funcionem com regularidade e sem falhas clamorosas. Por muito que os governantes se achem inocentes nestes acontecimentos – e, certamente, são-no –, eles são responsáveis por eles. É evidente que o que aconteceu – fundamentalmente, em Pedrógão Grande e Tancos – é ainda consequência das políticas de austeridade que continuamos a seguir, mas não só. São fruto da leviandade que se instalou no Portugal democrático, leviandade essa que tem o PS como um dos principais expoentes, embora tenha boa companhia no lado da oposição.

Do ponto de vista político, parece claro que chegou a hora de António Costa fazer uma remodelação profunda no governo. O problema, porém, não será debelado com uma mera troca de ministros. O governo carece de uma legitimidade eleitoral cuja ausência, em momentos de crise e apesar da boa vontade do BE e do PCP, se torna de imediato patente. Os partidos de esquerda deveriam ponderar muito seriamente num governo onde todas as forças de esquerda estivessem representadas. Um governo que não viva apenas para o défice, a dívida e as devoluções. Um governo que cuide do país e da eficiência e democraticidade das instituições. O que está em jogo é evitar a degradação da situação política, a qual está ameaçada por estes acontecimentos, mas também com os previsíveis conflitos nas áreas da Saúde e da Justiça. A euforia governativa de há semanas atrás desapareceu num ápice. Pode ser uma oportunidade para olhar a realidade de frente e acabar de vez com os jogos florais. Pode ser o começo do descalabro.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O sem destino

Adelino Lyon de Castro - Sem destino, Portugal, 1980

Ao cruzarmos a fotografia, a data e o título que lhe foi dada pelo fotógrafo, podemos ser tentados a ver nela uma metáfora sobre o destino - ou a sua ausência - de Portugal na transição da década de setenta para a de oitenta do século XX. As tentações nem sempre são boas conselheiras. Aquilo que vemos - ou que nos é dado a ver, o que não é bem a mesma coisa - é o outro lado da realidade portuguesa, não de 1980, mas de Portugal ao longo da sua história. Uma parte do país parece, muitas vezes, brilhante, de aspecto triunfal, tendo um caminho e um destino, mas isso é só parte da realidade. Existe a outra parte, aquela que a fotografia retrata, que, nos momentos mais inesperados, se manifesta estrondosamente, para depois, se ocultar silenciosa, até que uma qualquer câmara escondida - isto é, uma tragédia, uma crise financeira, etc. - a torna a trazer para o primeiro plano. Se não nos deixarmos iludir pela exaltação da retórica política, talvez descubramos que este sem destino é ainda um momento constitutivo do nosso próprio destino. Aquilo que somos enquanto comunidade faz-se no convívio e no conflito com a ameaça perpétua de perder a nossa destinação. Se eliminássemos esta parte ameaçadora, sempre presente, o mais provável seria deixarmos de ser o que somos. O mais provável é que possamos ir transformando, lutando contra ela, essa ameaça arcaica que nos constitui, mas não esteja nas nossas possibilidades eliminá-la. Ela mostra-nos a efemeridade das coisas e a nossa fragilidade. Dá-nos, desse modo, um saber. E é este saber que nos tem ajudado a sobreviver enquanto comunidade, contra todas as probabilidades, há quase nove séculos.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Flor Precária 9. Traços de argila

André Louis Derain - Bacchic dance (1906)

9. Traços de argila

Traços de argila
na fímbria da mão.

Florestas de água
na névoa da manhã.

Tulipas de fogo
no rumor do corpo.

(A Flor Precária, 1979)

terça-feira, 4 de julho de 2017

A incúria e o desinvestimento

HAZIR REKA- REUTERS (Público)

O assalto aos paióis de Tancos está a dar azo à confusão de duas coisas que, igualmente graves, não devem nem podem ser confundidas. Não se pode confundir incúria institucional e desinvestimento nas Forças Armadas. Independentemente de haver ou não dinheiro, independentemente de haver ou não vídeo-vigilância, as instituições militares têm a mais estrita obrigação de cuidar de instalações como aquela que foi assaltada. Este acontecimento torna patente um profundo problema no funcionamento da instituição militar, o qual é apenas um sintoma do laxismo instalado nas instituições nacionais. A falta de dinheiro não explica tudo. Seja nas Forças Armadas, seja em qualquer outra instituição do Estado.

Dito isto, há que sublinhar a gravidade do desinvestimento na Defesa Nacional, desinvestimento esse fruto de uma espécie de pacto entre as elites políticos do arco governativo (e, neste momento, não há já elites políticas fora do arco governativo). O investimento em Defesa Nacional é impopular. Os militares - com os seus aparentes privilégios - geram, por norma, reacções de ressentimento social. E os governos têm aproveitado isso para deslocar recursos financeiros para sítios que se traduzem em votos. A situação, porém, é intolerável. Portugal - e a Europa - precisam de investir em defesa, por impopular que isso seja. Não estamos em tempo para brincar com coisas sérias.

Nota: o título original, A incúria e o laxismo, saiu por engano. O que se pretendia era o actual A incúria e o desinvestimento.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

O anarquismo

Nadar  - Russian anarchist Michael Bakunin (1864)

As ideologia políticas têm tido, nas sociedades modernas, uma dupla função. As elites políticas assumem-nas como formas de legitimação do seu direito de ocupar o poder de Estado. Tanto os poderes autoritários como os democráticos precisam, para além da violência ou dos votos, de um discurso, de uma narrativa, que confira sentido e, por isso, legitimidade ao seu poder. Os cidadãos usam as ideologias como um véu de ilusão que os ajuda a suportar esse mesmo poder. A natureza do poder de Estado é tal que nunca é possível olhar para ele na sua crueza. A visão do poder tal como ele é em si mesmo é insuportável. Por isso, ele precisa de se cobrir com um véu e os cidadãos necessitam que ele se cubra com esse véu. No Antigo Regime, o véu ideológico seria a narrativa sobre o direito divino dos Reis a governar. Depois da Revolução Francesa, esse véu passou a ser constituído pelas ideologias políticas.

É aqui que cabe perguntar se o anarquismo é uma ideologia política. Em aparência, será, mas o anarquismo defende a extinção do poder do Estado. Mais do que uma ideologia comparável com o liberalismo, o socialismo ou o conservadorismo, o anarquismo é expressão de um sonho da humanidade. O sonho de não ter de se submeter ao império do outro. O sonho de não ter de obedecer ao arbítrio de terceiros. Como acontece com os sonhos, os sonhadores sabem que, devido à nossa natureza, o sonho anarquista é uma pura impossibilidade. E apesar de não o levarem a sério, não deixam de olhar para ele com a simpatia que devotam aos seus devaneios mais queridos. O anarquismo é o negativo da nossa condição. Ele não está no horizonte das nossas possibilidades, nem corresponde à nossa natureza retorcida e, para usar a linguagem da religião, decaída. Seria a forma de organização social em que gostaríamos de viver se não fôssemos aquilo que somos.

domingo, 2 de julho de 2017

Alma Pátria - 28: Tristão da Silva - Aquela Janela Virada para o Mar



Quem fez o upload deste vídeo para o You Tube diz que Tristão da Silva terá escrito esta canção enquanto estava preso, por ser oposicionista à ditadura. Não consegui confirmar a história e tudo indica que seja falsa. Existem algumas pequenas biografias na rede, mas em nenhuma delas encontrei referência que confirmasse essa tese. Na wikipédia refere-se o facto de Tristão da Silva ter sido oposicionista (pronto, também havia cantores românticos na oposição), mas também se diz que nunca esteve preso, não tendo a sua carreira artística sido afectada pelas suas convicções políticas. Por outro lado, vi, no Portal do Fado, que a letra e a música são da autoria de Frederico de Brito, o que parece bastante credível. Independentemente do autor e do lugar, esta canção passava bastante na rádio nos tempos do Prof. Salazar. É uma das imagens de marca do cantor – ou do cançonetista, como então se dizia – e faz claramente parte da música que acompanhou, nas emissoras dos anos sessenta, as gerações que assistiam, ainda um pouco incrédulas, à afirmação, muito ponderada e respeitosa, da televisão nesta paróquia perdida na periferia da Europa, pastoreada por um catedrático de província com a bênção de um cardeal amigo.

sábado, 1 de julho de 2017

Um desafio


A minha crónica no jornal A Barca.

Uma das consequências do fim do bloco de leste e da consequente derrota política e ideológica do socialismo foi a perda de sentido para as vitórias eleitorais da esquerda. Por perda de sentido refiro-me à ideia de que essas vitórias seriam – como então se pensava à esquerda – um passo no progresso para uma sociedade melhor e mais justa, uma verdadeira sociedade socialista. Não é que a realidade confirmasse que qualquer vitória eleitoral da esquerda tivesse o condão de deslocar a sociedade em direcção ao fim que ela almejava. Não deslocava. Permitia, quando permitia, algumas reformas tendentes a uma maior democratização no acesso a certos bens sociais. Contudo, o sentido estava ali a dar uma coerência e uma finalidade à história vivida.

Hoje em dia, nada disso existe. Uma vitória eleitoral da esquerda não é um passo em direcção a coisa nenhuma. Permitirá, eventualmente, algumas reformas menos duras na sociedade, mas não traz consigo nenhuma ilusão de um progresso em direcção a uma outra sociedade. As vitórias eleitorais da esquerda são apenas um momento que dará lugar a futuras vitórias eleitorais da direita. A ilusão de que nos estaríamos a aproximar de algo melhor e mais justo acabou, e acabou porque pura e simplesmente não há lugar nenhum mais justo que nos espere no futuro. Esse território da sociedade melhor que a actual – o que fazia da política de esquerda uma política de contínua extra-territorialização, de estar a caminho de outra coisa – nem como ilusão consistente existe hoje em dia.

Uma das consequências disso é a actual solução governativa portuguesa. Foi o sentimento difuso existente no BE e no PCP de que não há nenhuma sociedade socialista à nossa espera que os tem obrigado a apoiar ao governo de António Costa. Esse sentimento, porém, precisa de ser transformado em análise racional da realidade social e política que nos cabe. O desafio que se coloca hoje à esquerda é apenas – pois não há outro – o de melhorar as instituições económicas, sociais e políticas em que vivemos. Ora esta política de melhoria não pode ser construída apenas pela reivindicação de devoluções e de reposições de certos bem sociais perdidos. Esta é ainda uma política reactiva. A esquerda, se quer continuar a influenciar os destinos do país, precisa de ter políticas activas que melhorem o funcionamento da sociedade, que limitem drasticamente a corrupção, que combatam a incúria e que fomentem uma economia de mercado mais adequada, mais justa e com menos influência no Estado. Dito de outra maneira, que ajudem a melhorar o capitalismo.