Não há maior beatitude do que estar vivo para comemorar a vitória. Os mortos dormem o sono eterno e aos que a morte esqueceu é dado o instante onde toda a felicidade se resume no inesperado de um beijo, como se a vida fosse uma sombra de um filme de Hollywood.
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Beatitudes (17) Vitória
Não há maior beatitude do que estar vivo para comemorar a vitória. Os mortos dormem o sono eterno e aos que a morte esqueceu é dado o instante onde toda a felicidade se resume no inesperado de um beijo, como se a vida fosse uma sombra de um filme de Hollywood.
sábado, 9 de novembro de 2019
Nazismo e comunismo
No mês passado o Parlamento Europeu aprovou uma resolução de
condenação dos regimes nazi e comunista. Na verdade, ambos os regimes
perseguiram e mataram adversários e o Estado teve neles uma configuração
totalitária. No entanto, não se pode dizer que o nazi-fascismo e o comunismo
são a mesma coisa ou que o nazi-fascismo foi um regime de esquerda, como pretendem
agora alguns adeptos da adaptação da teoria da terra plana à política. Uma das
coisas que mais atormenta certa gente à direita é o facto de haver uma
reprovação moral do militante nazi mas não do comunista.
Os regimes fascista italiano e nazi alemão são tentativas de
corte com a tradição cristã, uma ruptura com os valores que a Europa, a partir
da Queda do Império Romano, criou. São regimes que tentaram fazer reviver o
mundo imaginário do Império Romano, antes da conversão ao cristianismo, ou do
ainda mais imaginário mundo ariano dos povos germânicos. Tentativas delirantes,
apoiadas na tecnologia moderna, de inventar tradições míticas de um passado
glorioso ou puro. Para além dos crimes, aquilo que não tem permitido acomodar
moralmente nazis e fascistas é a sua recusa dos valores cristãos, mesmo que
secularizados.
O comunismo pertence a outra tradição e a sua ligação com o
cristianismo, apesar do ateísmo filosófico do marxismo, é real. Em primeiro
lugar, o marxismo é uma radicalização do liberalismo. A emancipação política e
jurídica defendida pelos liberais é radicalizada pelo marxismo como emancipação
social. A igualdade formal perante a lei dos liberais é radicalizada em
igualdade real na vida social pelos comunistas. O comunismo não é mais do que
um liberalismo levado às últimas consequências. Em segundo lugar, o próprio
liberalismo, filho do Iluminismo, é uma secularização dos valores cristãos,
secularização mediada pela Reforma protestante. O comunismo, por seu turno,
apesar de ver a religião como ideologia, não deixou de herdar esses valores
cristãos, vindos através do liberalismo, orientando-os para a emancipação na
terra e não para a salvação no céu.
Enquanto no mundo ocidental o cristianismo e o liberalismo
tiverem algum peso cultural, será difícil olhar para um comunista e ver nele
alguém que é do mesmo tipo de um nazi. O comunista é um irmão mais novo que se
radicalizou e tem uma visão extremada dos valores que todos partilham, julgando-os
possíveis de realizar na terra, através da violência revolucionária, enquanto o
nazi é aquele que quer dissolver a ordem que o cristianismo trouxe ao mundo. Isto
não iliba o comunismo dos crimes que cometeu, mas ajuda a perceber a tolerância
com que os comunistas, ao contrário dos nazis, são vistos. Eles pertencem à família.
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Pretérito Imperfeito 9. Deus
terça-feira, 5 de novembro de 2019
Alma Pátria 56: José Mário Branco, Queixa das Almas Jovens Censuradas
Chegou a vez de José Mário Branco aparecer no Alma Pátria. Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades
é o seu primeiro álbum, editado em 1971, em plena primavera marcelista, em
França onde se encontrava exilado. Surpreendente é a qualidade elevada de um
primeiro álbum, um refinado gosto na escolha dos textos, mesmo nos que têm um
tom mais interventivo, sem nunca deslizar para soluções fáceis e tonitruantes. “Queixa
das Almas Jovens Censuradas” é um poema de Natália Correia e é um dos retratos
mais exactos daquilo que a ditadura nos fez ser. A música de José Mário Branco
parece ter sido a fonte original de onde brotou aquele poema e não uma música
que se adaptou a ele, e isso diz tudo do génio musical de José Mário Branco.
domingo, 3 de novembro de 2019
Ensaio sobre a luz (73)
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
As direitas
Os resultados das últimas eleições vieram pôr a nu a crise
que atinge a direita em Portugal. A direita parlamentar vale neste momento
34,6% dos votos e 86 deputados, enquanto a esquerda parlamentar vale 53,3% dos
votos e 140 deputados. Isto coloca enormes desafios à direita democrática para
se aproximar do poder. Mesmo que o entendimento parlamentar das esquerdas tenha
acabado, nada garante que, em caso de necessidade, não volte a existir. A
direita para governar precisa de ter mais deputados que a esquerda. Estamos assim
num momento de crise e reconfiguração da direita. Vejamos alguns aspectos.
Comecemos com as novidades. O Chega alcançou o parlamento a
partir de algum rancor social, nomeadamente em zonas onde pode haver conflitos
com a comunidade cigana. Tem alguma margem de progressão fundada na exploração
do ressentimento social e caso se prolongue a crise da direita democrática. A
Iniciativa Liberal (IL) aproveitou o desencanto à direita e juntou uns quantos
órfãos das políticas de Passos Coelho. Pode herdar algum eleitorado jovem do
CDS e do PSD, caso este continue longe do poder. Seja como for, tem um programa
que não se acorda nem com a realidade do país nem com a tradição da direita
portuguesa. A margem de progressão parece curta e depende do que vier a
acontecer no PSD.
A crise que atinge o CDS é gravíssima. Não apenas perdeu
muito eleitorado como deixou de ser a única alternativa real aos descontentes
com o PSD. Tanto a IL como o Chega podem pescar nas águas onde o CDS pesca. Os
sectores mais ultramontanos podem encontrar no Chega a sua representação,
enquanto os mais liberais têm agora a IL ao dispor. Não se vislumbrando a
emergência de um líder carismático, estando o CDS acantonado num estrato social
muito específico e idiossincrático, as últimas eleições podem ter sido o ponto
de partida para o seu desaparecimento. Enfrenta uma ameaça real.
O caso mais interessante é o do PSD e a luta entre os
adeptos do passismo, representados por Luís Montenegro, e uma velha tradição da
direita portuguesa de carácter paternalista, com algumas preocupações sociais e
com alguns toques, não exagerados, de conservadorismo, encarnada por Rui Rio.
Se Montenegro ganhar o partido, este tenderá a ser mais liberal, o que poderá
liquidar a IL mas encolher o campo social do PSD. Se Rio se mantiver, teremos
um PSD menos liberal, mais na tradição de Cavaco Silva e mais próximo do centro
e da doutrina social da Igreja. Caso saia vitorioso no embate dentro do PSD,
não se pense que a esquerda recebe um bónus. Rui Rio, no parlamento e com a
aprendizagem feita, será, para António Costa, um osso duro de roer.
[A minha crónica em A Barca]
[A minha crónica em A Barca]
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
A doença das democracias liberais
Em curta entrevista concedida este ano ao Estadão de S.
Paulo, o cientista político Yascha Mounk, especialista na crise das democracias
liberais, afirmava temer que não se esteja perante um mero episódio de
populismo, mas a entrar numa era populista. Os líderes populistas ocupam já
parte significativa dos governos em países ocidentais e quando os eleitores
percebem que esse tipo de políticos é bem pior que os tradicionais, não volta
às opções moderadas mas opta por populistas ainda mais radicais.
O romancista Amós Oz oferece duas razões plausíveis para a
emergência desta crise universal das democracias. Uma primeira é a redução da
política ao entretenimento. As pessoas votam porque querem divertir-se,
excitar-se, querem novidade e escândalo, desligando o voto daquilo que vem a
seguir. Se aceitarmos o argumento de Oz, podemos procurar as fontes que
promoveram o entretenimento a factor cultural determinante das condutas
políticas. A televisão e as redes sociais são uma dessas fontes, pois
transformaram tudo em entretenimento, tornando-o no modelo da vida social.
Outra vem da própria educação e da retórica contínua que a visa modernizar, substituindo o esforço e a
superação pela busca de prazeres fáceis e recompensas imediatas, isto é, pelo
entretenimento.
Uma segunda ideia do escritor israelita prende-se com a
grande complexidade do mundo actual. A globalização ou a questão climática, por
exemplo, são de tal maneira intrincadas que os eleitores não as compreendem. Os
níveis de literacia do cidadão médio são insuficientes para lidar com a
sociedade em que vive. A consequência é a eleição de políticos que oferecem
soluções simples. Por norma, esses políticos escolhem um bode expiatório e
acusam-no de todos os males que atormentam as pessoas. Esta mentira é agradável
aos eleitores e estes, sem instrumentos para pensar e avaliar a realidade, optam
pelo mais fácil e o que lhes parece mais agradável.
É possível que estejamos a entrar numa fase de persistente
retracção dos valores democráticos. O mais preocupante é que parece haver pouca
capacidade para deter esta onde de irracionalidade. Assistimos a um teste dos
mais difíceis que se podem colocar às democracias representativas. Serem vítimas
já não de golpes militares ou revoluções, mas dos seus próprios resultados. Os
eleitores escolhem democraticamente aqueles que pervertem ou perverterão os
regimes democráticos, como se o conjunto de direitos civis e políticos que
estes regimes asseguram fossem irrelevâncias que se podem dispensar.
[A minha crónica no Jornal Torrejano]
terça-feira, 22 de outubro de 2019
Pretérito Imperfeito 8. Esperança
domingo, 20 de outubro de 2019
Portugal, um país a dissolver-se
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| Daqui |
O retrato de Portugal, baseado num conjunto diversificado de estatísticas do Pordata, não é animador. Envelhecido, média de idade das mães no momento do nascimento do primeiro filho e média de filhos por mulher muito pouco animadoras, poucas habilitações literárias, com grandes gastos em saúde (5,4% do rendimento familiar contra 0,4% da média europeia). Vale a pena ver os resultados, alguns são inusitados como Portugal, um país com crónica falta de médicos, ser o terceiro país da União Europeia com mais médicos. Também a instituição casamento já teve melhores dias, pois 54,9% das crianças nasce fora do casamento. Há coisas positivas com o baixo índice de mortalidade infantil, por exemplo. Seja como for, tendo em conta os dados, Portugal parece estar lentamente a desistir de si próprio, num haraquíri silencioso. Ora o principal problema político de uma comunidade é assegurar a sua persistência no tempo, a sua continuidade. Todos os outro problemas - onde se incluem o da justiça distributiva - estão, ou devem estar, subordinados a esse. É incompreensível como esse não é um dos temas centrais do debate político. Um país a dissolver-se.
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
A Catalunha de novo
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| Gerda Taro, Crowd outside morgue after air raid,Valencia, Spain, 1937 |
O problema da Catalunha não está no independentismo, está na própria Constituição. Ao bloquear a possibilidade de se mostrar, através de um referendo legal, aquilo que os catalães querem, a Constituição espanhola torna impossível uma solução. Muito provavelmente, um referendo na Catalunha daria a vitória à continuidade e seria uma pesada derrota para o nacionalismo catalão. Este alimenta-se do nacionalismo castelhano. Agora são as condenações que dinamizam a mobilização popular. Amanhã será outra coisa. Ironicamente a situação da Catalunha está mais próxima do Curdistão - onde os curdos não se podem pronunciar - do que da Escócia, onde a possibilidade dos escoceses poderem escolher está assegurada, já o tendo feito e escolhido ficar no Reino Unido. O normal seria a Espanha estar mais próxima de Inglaterra do que da Turquia, mas as democracias ibéricas são demasiado imaturas para permitir a livre escolha das comunidades e dos indivíduos.
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
A manutenção de Brandão Rodrigues
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| Martins Barata, A lição de Salazar. Cartaz distribuído nas escolas em 1938 |
António Costa não é pessoa para tomar decisões sem as
calcular. Quando escolheu Tiago Brandão Rodrigues para ministro da Educação
pensou-se que era um erro de casting,
uma daquelas escolhas que os primeiros-ministros fazem para dar um ar mais
independente ao gabinete. O ministro desde cedo tornou evidente que não fazia a
mínima ideia do que tratava a pasta que lhe tinha sido atribuída. Durante quatro anos, foi de uma absoluta irrelevância. Deixou a rédea larga a quem
tinha planos mais pessoais ou mais mirabolantes, isto é, aos secretários Alexandra Leitão e João Costa. Se o ministro não
sabia nada no início do mandato, a situação não melhorou no fim. Pessoas
generosas podem ter pensado que António Costa não o substituiu para não fazer
um favor à oposição e aos sindicatos de professores.
Com a recondução do ministro, toda a gente ficou a perceber
que a escolha de Costa fora, desde a primeira hora, deliberada. Quis uma figura
fraca num ministério que quis e quer fraco. Contrariamente ao que pensam muitos
professores e sindicatos, não se trata de um particular azedume com os docentes.
Trata-se antes de uma visão da educação enquanto política pública. A retórica
do tempo de Guterres, com a sua paixão serôdia pela educação dos indígenas,
passou de moda há muito. Para os socialistas, tal
como o mostrou Sócrates, mas também para a direita, a educação é uma enorme encrenca, onde se dilapidam
com gente sem mérito os recursos necessários para outros lados. Quando se
escolhe para ministro alguém que não sabe nada da área, que nem sequer é um
ministro político, a explicação é simples. Quer-se vincar a pouca importância que
essa área deve ter nos negócios políticos da nação.
Enquanto se ganha tempo para entregar toda a educação não
superior, incluindo o professorado, nas mãos dos municípios ou na dos privados
pagos pelo erário público (não se iludam com a reversão dos contratos com os
colégios privados, pois tudo é uma questão de tempo e de oportunidade, isto é, percentagem de votos), faz-se
baixar o peso político da área, para que esta não incomode demasiado. Que
política é esta? É uma política clara e distinta. Quem tem dinheiro põe os
filhos nos colégios privados, caso viva em sítio onde existam, ou paga
generosamente a explicadores, se tiver a infelicidade de viver em sítios onde
não os há. E os outros? Os outros, os que não têm dinheiro, não contam. Para
esses há a flexibilização curricular, as medidas de inclusão, as escolas dos
projectos, das articulações curriculares e de outros jogos florais que, desde o
tempo de Cavaco e Roberto Carneiro, as elites governativas tentam impingir às
escolas, sempre com a acintosa resistência do professorado. O importante é que
os alunos sejam felizes, mesmo que não saibam nada. Uma figura irrelevante é a escolha
mais sensata para uma pasta que se quer irrelevante. É este o pensamento
educativo dos socialistas, como o é, de outra maneira, o da direita.
domingo, 13 de outubro de 2019
O papel da classe operária
| Ipsos Sopra-Steria, Fractures Françaises 2019 |
Quando Jean-François Lyotard veio falar no fim das grandes narrativas - ou metanarrativas - meio mundo caiu sobre ele. O filósofo francês já morreu há mais de 20 anos, mas basta olhar para a tabela acima para compreender como uma das metanarrativas políticas mais influentes e persistentes no século XX foi reduzida a estilhaços, o que parece dar-lhe alguma razão. Refiro-me ao comunismo. Talvez ainda se lembrem do glorificado papel do proletariado como vanguarda que faria a humanidade transitar da opressão capitalista para a sociedade comunista, onde a abolição da propriedade privada, através da acção daqueles que nada têm (os proletários), nos conduziria a uma sociedade sem Estado e, por isso, sem dominação e opressão. A classe operária encarnava a vanguarda da história.
O quadro apresentado é desolador. Em todos os itens, os operários franceses, em comparação com outros estratos sociais de França, são aqueles que possuem as posições mais retrógradas (melhor, reaccionárias), e as mais ameaçadoras para a existência de uma vida civilizada. São os que mais defendem a reintrodução da pena de morte, são os únicos que, maioritariamente, acham que o Rassemblement Nationale (de Marine Le Pen) é capaz de governar o país. Também é entre o operariado que aqueles que julgam que há outros sistemas que podem ser tão bons como a democracia são maioritários. Isto para não falar na rejeição da mundialização e na relação com os estrangeiros. São também os que mais aceitam a violência dos coletes amarelos, com uma taxa de rejeição inferior a 40%.
Percebe-se que um velho comunista possa sentir-se desolado e amargo. No entanto, aquela história da vanguarda proletária da humanidade nunca passou de uma ficção. O discurso de vanguarda revolucionária foi sempre e essencialmente uma narrativa de intelectuais iluministas radicalizados, os quais arrastaram alguns elementos das classes operárias também com propensões intelectuais e aspirações iluministas. Em muitos países as classes operárias foram reformistas, na melhor das hipóteses, e conservadoras, para não dizer reaccionárias (ver os EUA e a eleição de Trump). Em alguns momentos e lugares, julgaram poder abrigar-se num regime de ditadura do Partido Comunista, mas não por serem revolucionárias, mas por sentirem necessidade de protecção.
Agora os operários aderem às soluções iliberais e reaccionárias pelos mesmos motivos, por necessidade de protecção de um mundo que não compreendem e que temem com não pouca razão. Na verdade, as classes operárias foram e são essencialmente passivas, embora se possam revoltar aqui e ali (veja-se o apoio aos coletes amarelos). O que mais temem é a iniciativa, pois esta torna-lhe o mundo um lugar permanente de desconforto. Talvez o grande sonho do operariado - um sonho de que os operários terão uma percepção muito difusa - seja o retorno à situação prévia à Revolução Industrial, ao mundo protegido pela estratificação social em que viviam, onde apesar de tudo tinham um lugar que era o deles. Talvez seja este o significado do seu amplo apoio à política de Marine Le Pen. Isto está a chegar a Portugal, com o atraso habitual.
sábado, 12 de outubro de 2019
Pretérito Imperfeito 7. Ânsia
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
Das eleições, leituras
1. APESAR DO PRÓPRIO
PARTIDO. O PS teve um bom resultado, mas não excelente. Não conseguiu
penetrar significativamente na esquerda e alienou, em campanha, uma parte do
centro para o PSD. A governação era propícia para chegar a uma maioria
absoluta. No entanto, os portugueses desconfiam do PS. Não foi apenas o reinado
de Sócrates. São as ligações familiares, os negócios de ocasião, a forma como
parece enrolado em Tancos. Para acabar, até o sagaz António Costa se deixou
envolver numa querela sem sentido com um alegado militante do CDS. Se há
partido que precisa de uma grande reforma (moral), esse é o PS.
2. UM NINHO DE
VÍBORAS. O discurso de domingo de Rui Rio cheirou a desculpa de mau pagador,
a uma tentativa de descobrir uma vitória onde houve uma derrota pesada. PSD e
PS são duas máquinas vorazes de poder. Fora dele, sem o ter à vista, tornam-se
autênticos ninhos de víboras, ainda mais o PSD que o PS. Rui Rio, no seu
discurso, não evitou ser viperino. Fez uma boa campanha, ajudado pelo desnorte
do PS, mas até ela sempre foi um líder sofrível. O PSD vai discutir lideranças.
É inevitável, mas mais do que isso precisa de discutir a sua armadura
ideológica e o que quer para a sociedade em que vivemos.
3. O FIM DA JUVENTUDE.
O Bloco de Esquerda perdeu cerca de 50 mil votos. Essa, porém, não foi a sua
maior perda. Começa a parecer-se com os partidos do arco da governação.
Abandonos, cisões, imposições vindas de cima, o BE perdeu a inocência e, apesar
de se ter afirmado como terceiro partido nacional, está a dissipar o encanto
que arrastou – e ainda vai arrastando – uma juventude idealista e
contestatária. Está a transformar-se, mais depressa do que se suspeita, num
partido velho e de gente velha.
4. MERCADOS EM
RETRACÇÃO. O CDS e a CDU sofrem do mesmo mal, a retracção do seu mercado
eleitoral. O mal do CDS é que a sua imagem está colada ao que se poderia chamar
um partido de betos. Enquanto não
largar essa imagem, as suas possibilidades de crescer são muito limitadas. A
CDU, melhor, o PCP sofre de um mal idêntico, embora de sinal oposto. As
fronteiras do seu mercado eleitoral são fechadas, o partido não tem capacidade
de penetrar fora das paredes de vidro que o fecham numa fortaleza onde ninguém
entra, mas de onde os eleitores se vão escapando. CDS e CDU parecem
reminiscências de um mundo que acabou.
5. O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO. Grande resultado
do PAN, uma nulidade política baseada no animalismo, pintalgado de
ambientalismo e sem consistência política. Sinal da natureza disruptiva do
tempo que vivemos. Sinal do tempo é também o Chega. Vai-se estruturar
politicamente, a partir da Assembleia, e vai explorar o ressentimento que há
por aí. Pode não ser coisa passageira. Iniciativa Liberal e Livre são a
expressão do cosmos lisboeta, das jovens elites anglofilizadas e embasbacadas
com um liberalismo que nunca existiu em Portugal, o primeiro, e a representação
da natureza multicultural da capital do país, o segundo. Os quatro são frestas
para espreitar o futuro.
terça-feira, 8 de outubro de 2019
Chega, uma voz para o ressentimento
Dos novos partidos que chegaram agora à Assembleia da República, o Chega é aquele que me parece ter uma perspectiva mais auspiciosa de crescimento. A principal razão é a de se alimentar do ressentimento. Podemos encontrar dois tipos de ressentimento no país. Por um lado, o ressentimento de camadas sociais mais baixas, completamente despolitizadas, sem iniciativa tanto na vida pessoal como na cívica, perdidas num mundo que parece não ter sido feito para elas. Um discurso como o do Chega explora com facilidade a inveja latente nestes estratos, que poderão encontrar nas simplificações de André Ventura umas verdades sobre as elites políticas democráticas, a quem não amam e nem sequer temem, e que poderão desejar castigar. Não é este, todavia, o único ressentimento que se pode aninhar no Chega. Há franjas das classes médias que têm uma imensa saudade não propriamente do salazarismo mas da ordem existente num mundo que muita gente desses meios não conheceu mas que imagina a partir das narrativas laudatórias com que foi educada. Votaram durante muito tempo no CDS e no PSD, mas nunca se sentiram representadas por esses partidos, demasiado democráticos e respeitadores de uma ordem onde a esquerda política e uma visão liberal dos costumes podem estar integradas. Em caso de crescimento, será a esta camada que o Chega irá buscar os quadros e os ideólogos. O partido de André Ventura pode vir a casar esses dois tipos de ressentimento social aparentemente antagónicos através do uso do Estado. Ao mesmo tempo que pretende limitar certos direitos liberais - civis e políticos - não desdenha de usar os direitos sociais para anestesiar a deriva iliberal. Descurar o poder do ressentimento na vida política pode ser um erro trágico para uma democracia representativa e liberal.
sábado, 5 de outubro de 2019
O 5 de Outubro
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| Francesca Woodman, From Angel Series, Rome, Italy, September 1977 |
Poderia falar da República que faz hoje 109 anos, mas o sábado não me parece propício para tal peroração. Há pouco a rua era percorrida por um vento desagradável, pouco conveniente, a lembrar que apesar dos termómetros o Outono já chegou. Talvez as repúblicas sejam regimes outonais, ao contrário das monarquias. Essa porém é um suposição sem sentido. São muitas as coisas sem sentido que me ocorrem em dias como o de hoje, determinado por lei a ser um dia de reflexão. Também eu me coloquei defronte do espelho para ver se reflectia. Nele, nada vi que me lembrasse de mim. Se havia alguma coisa reflectida não era eu. A data de 5 de Outubro é quase perfeita. Os monárquicos podem comemorá-lo, pois foi a 5 de Outubro que monarquia portuguesa começou. Na mesma data acabou a monarquia e começou a República, o que alegrará os republicanos. Só os anarquistas não têm razão alguma para deitar foguetes no dia de hoje, embora possam correr para apanhar as canas. O sol quando nasce não é para todos.
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
O crescimento do hooliganismo político
Um dos efeitos colaterais do surgimento das redes sociais é
o da expansão do hooliganismo
político. Jason Brennan, no seu livro
Contra a Democracia, classifica em
três tipos os cidadãos dos estados democráticos. Uns são hobbits. Não têm interesse pela política, não possuem opiniões
políticas fortes e permanentes. Ignoram factos, instituições, processos e a
história política da comunidade a que pertencem. São politicamente passivos. A
segunda categoria é a dos hooligans.
Possuem opiniões políticas fortes e
permanentes. Defendem com ardor as suas posições, mas são incapazes de
articular argumentos contra posições adversas. A sua relação com as suas
crenças políticas e a dos adversários é enviesada. Ignoram ou desprezam toda a
pesquisa científica que contrarie as suas opiniões. A última categoria é a dos vulcanos, possuem uma visão científica e
crítica da política. Fundam as suas opiniões na evidência empírica. Possuem um
interesse marcado pela política, mas olham-na de forma desapaixonada.
Por norma, aqueles que fazem política e a vivem, desde a
militância até ao suporte partidário ocasional, inscrevem-se na categoria de hooligans. O que parece passar-se, a
partir do crescimento das redes sociais, é que parte dos hobbits se está a deixar atrair para discursos radicais,
reproduzindo-os, tornando-se fonte de emissão de opiniões professadas pelos hooligans. A polarização política que as
redes sociais têm fomentado ajuda a explicar este crescimento do hooliganismo político. Um caso
interessante é a reacção à figura de Greta Thurnberg. Encontra-se não apenas
nos jornais tradicionais como nas redes sociais uma campanha de ódio contra a adolescente
sueca. Não examinam as suas razões ou o sentido da sua causa para as rebaterem
de forma racional, mas lançam uma terrível campanha contra a pessoa. Campanha
essa que é partilhada por muita gente que, noutros tempos, seria indiferente ao
assunto.
A prática política – e a questão climática tem uma clara
dimensão política – nunca foi o reino dos vulcanos.
No entanto, as democracias representativas cresceram e consolidaram-se num
equilíbrio tenso entre as pulsões dos hooligans
políticos e um conjunto de virtudes sociais que implicavam o respeito pelo
outro, a ideia de que há limites para aquilo que fazemos e dizemos. São estas
virtudes sociais que estão a ser dinamitadas deixando o hooliganismo político sem freios e contrapesos. Com a ajuda das
redes sociais, o crescente hooliganismo
político está a escavar os alicerces que suportaram as democracias ocidentais,
baseadas num reconhecimento tácito dos adversários e numa forma de vida
civilizada. Não me parece uma boa notícia.
terça-feira, 1 de outubro de 2019
Pretérito Imperfeito 6. Anoitecer
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Um exercício de reinvenção
O Jornal Torrejano (JT), nesta segunda encarnação, a de
Setembro de 1994, talvez fosse uma iniciativa já anacrónica. Isso, porém,
ninguém o imaginaria. Nasceu numa época em que muitos ainda acreditavam na
existência de uma esfera pública burguesa, isto é, civil e interessada nos
problemas da comunidade, onde se teciam e terçavam argumentos sobre o bem comum.
O JT vinha para alargar a esfera pública concelhia, retirá-la da modorra em que
vivia há largas décadas. Quis pluralizar a opinião política local e centrá-la
no debate do que fosse relevante. No fundo, era um projecto de jornalismo
político ao nível concelhio, e isso fazia a diferença relativamente à situação.
Nasceu também num tempo em que os jornais eram de papel, coisas materiais e
sólidas. As pessoas compravam-nos, sentavam-se numa esplanada e liam-nos,
enquanto tomavam café.
Seja no tempo longo da História, seja no tempo curto de uma
vida, a verdade é que em 25 anos as coisas mudaram muito. A esfera pública
burguesa explodiu. Foi dinamitada pela internet
e pelas redes sociais. Com a explosão confundiram-se o público e o privado, a
própria intimidade, último reduto do privado, tornou-se pública. O debate
político foi substituído por campanhas de hooligans
em que as partes se bombardeiam com mentiras e frases ocas. Não se trata de
pensar e debater, trata-se de sentir e aniquilar simbolicamente, por enquanto,
os oponentes. Por fim, a solidez dos jornais dada pelo papel está a evolar-se
com a sua desmaterialização no ciberespaço. O JT foi-se adaptando e tentando
andar sobre as águas, evitando o pior que os tempos trouxeram. Ter sobrevivido
não foi pequeno feito.
Podemos sempre fazer um exercício de projecção. O que poderá
ser o JT daqui a 25 anos, caso ainda exista? Duas coisas parecem claras, talvez
as únicas. Será completamente desmaterializado. Será lido em dispositivos
electrónicos como já sucede em muitos casos agora. Também a velha esfera
pública burguesa, com os seus rituais de racionalidade, que animou o projecto em
1994, não voltará. Todo o resto é uma incógnita. O facto de ser uma incógnita é
uma vantagem, pois obrigará o JT a repensar-se, a recriar-se, a tirar partido
da contínua transformação tecnológica. Obrigá-lo-á a olhar para a sociedade e
encontrar os destinatários que, através dele, renovarão o vínculo que os ligará
a um destino comum. O melhor presente que o JT pode ter neste aniversário é o
espaço fechado do futuro. Esse será o campo que terá de desbravar, o que lhe
exigirá um repensar-se e um redesenhar-se constantes.
[A minha crónica na Revista dos 25 anos do Jornal Torrejano]
sábado, 28 de setembro de 2019
O prazer de ir a lado nenhum
O maior prazer daqueles que frequentam a literatura será o
da deambulação, visitar lugares desconhecidos e confrontar-se com mundos
inesperados, andar por aí sem ir a lado nenhum. Se quisermos uma prova sobre a
existência de uma pluralidade de mundos, basta uma palavra: literatura. Cada
romance traz com ele um mundo, diríamos um mundo potencial onde seria plausível
imaginar pessoas de carne e osso a viver, carregadas com as suas expectativas,
vitórias e o drama das derrotas. A poesia é ainda mais radical, pois cada
poema, pequeno que seja, traz em si um universo. O que esses mundos da
literatura possuem de especial é que a sua criação é feita a duas mãos. O escritor
e o leitor que conclui no seu espírito a obra produzida pelo autor. Não há
apenas um romance Os Maias ou um A Montanha Mágica. Há tantos quantos os
leitores que, ao interpretarem os textos, os fazem viver sempre de forma
singular.
Há quem diga que apenas lê os clássicos. A justificação que
apresenta é pertinente. Como aquilo que há para ler é tanto e a esperança de
vida tão curta, o mais ajuizado é dar atenção apenas ao que a tradição
canonizou. No entanto, esta perspectiva impede-nos o prazer da descoberta,
evita a experiência do erro, põe de lado toda uma riqueza literária que o tempo
apagou. Se seguisse esse sábio conselho nunca teria descoberto Joaquim Paço de
Arcos, nem estaria a ler Carlos Malheiro Dias. Este era visto, após a morte de
Eça de Queiroz como o grande romancista português. O tempo não esteve de
acordo, mas é um escritor que vale a pena ler. Tem um poder descritivo de
grande alcance e precisão e não deixa de ecoar nos universos literários que
constrói um ethos que desconhecemos.
Como dizia a princípio, o grande prazer é o da deambulação.
E é isso que faço neste momento, indo entre Malheiros Dias, Filho das Ervas, e Anatole France, A Revolta dos Anjos, atravessando pelo
meio os poetas Daniel Jonas, Canícula,
Amândio Reis, Spinalonga, e Manuel
Rodrigues, Anastática (em homenagem a
Alberto Pimenta), sem esquecer os dois livros da Ivone Mendes da Silva, Dano e Virtude e A Mulher do Meio. O interesse desta errância é o da pluralidade
das experiências que, enquanto leitor, sou submetido. Se apenas lesse aquilo que
consta do cânone literário, talvez nem o Anatole France estivesse a ler. Não
teria, contudo, o prazer de me perder por caminhos que se bifurcam, se opõem,
se anulam e apagam, que, para dizer tudo, não vão a lado nenhum. E que prazer
maior pode haver, num mundo onde toda a gente quer ir a algum lado, do que não
ir a lado nenhum?
[A minha crónica no Jornal Torrejano]
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