quarta-feira, 31 de março de 2021

Beatitudes (44) Solipsismo

Rodney Smith, Samuel from Behind, 1997
Há uma estranha felicidade em imaginar-se, por instantes, na mais profunda solidão, sem que outros seres humanos cruzem o horizonte. O solipsismo nunca deixou de ser uma tentação. Depois, sem que se perceba como ou porquê, a fantasia desvanece-se, a solidão de bênção torna-se em ameaça, e a vida volta a esse convívio com os outros, ora desejado, ora apenas suportado.

terça-feira, 30 de março de 2021

O tempo do desejo e o da pandemia

Oscar Dominguez, Quelques mouvements du désir, 1937

Apesar do espantoso desempenho dos EUA no processo de vacinação contra a covid-19, as autoridades políticas, científicas e sanitárias estão bastante preocupadas com a emergência, no país, de uma quarta vaga da pandemia. Falam mesmo de ‘desgraça iminente’. O caso não se deve à falta de eficácia das vacinas, mas ao comportamento das pessoas. Ainda longe da imunidade de grupo, o que se exige é uma grande disciplina comportamental. Uso de máscaras e distanciamento social continuam a ser imperativos.

Mais uma vez se comprova que os países ocidentais deixaram de ter – se alguma vez a tiveram – disponível a disciplina de grupo como arma para enfrentar perigos colectivos, como é esta pandemia. Há uma enorme discrepância entre o tempo do desejo e o tempo da pandemia. O desejo surge perante a vontade como um imperativo que se quer realizar o mais rapidamente possível. O desejo de conviver com os outros e o desejo de voltar ao modo de vida anterior são investidos por uma grande urgência. O tempo do combate à pandemia – apesar da aceleração que tem tido – é muito mais lento. À urgência do desejo contrapõe-se a lentidão daquilo que permitiria criar condições seguras para a consumação do desejo.

O caso é agravado porque, numa sociedade de mercado, a competência de diferir a realização dos seus desejos é constantemente dinamitada pela própria sociedade. A necessidade de que os produtos sejam rapidamente consumidos, para que novos entrem no mercado, é uma forma de intensificar até ao paroxismo o desejo humano. O ideal da sociedade em que vivemos é que todos os desejos sejam consumados instantaneamente, mal emirjam a situação da sua não consumação torna-se insustentável. O mercado – e todos nós fazemos parte do mercado e dependemos dele – exige que assim seja. Percebe-se por que razão estão as autoridades americanas assustadas. Temem não ter mãos nas máquinas desejantes em que todos nos tornámos.

segunda-feira, 29 de março de 2021

A Garrafa Vazia 54

Bill Jacklin, 35th Precinct, 1987
A fúria cobaltosa
do coração
abre-se ao negrume
da caverna.

Simulacros e sombras
dançam
tangos e tarantelas
no porão da tarde.

Riem-se da granada
que explode
na grua
da minha mão.

Março de 2021

domingo, 28 de março de 2021

Nocturnos 57

Greg Girard, Tokyo, Shinjuku, 1976

A noite expulsou os corpos para dentro de casa. É agora um reino longínquo, povoado pela chuva, pelo vento, pela luz fantasmagórica criada pelo engenho dos homens. Nesse país vazio, invisíveis, deslocam-se memórias, desejos, esboços de seres que lutam para vir à luz do mundo.

sábado, 27 de março de 2021

Alma Pátria 71: Mara Abrantes, Fecho a Janela


 

In illo tempore, a alma pátria deveria andar sempre cruelmente devastada. Não havia rua, viela ou beco onde um coração desfeito não sangrasse dolorosamente. Um rio de sangue motivado por amores desencontrados, desfeitos, atraiçoados, dir-se-ia, corria por Portugal de lés-a-lés. Mara Abrantes, uma brasileira chegada ao país em 1958, faz parte, sem qualquer favor, dessa alma pátria que era segregada pela rádio e, depois, pela televisão. O público gostava deste tipo de dramas amorosos com sabor a fado e, neste caso, temperados pela pronúncia, sempre agradável, do outro lado do Atlântico. A canção – um fado canção – foi editada em EP em 1970, tem por autores António José e Ferrer Trindade, cuja orquestra acompanha a cançonetista, como então se dizia.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Simulacros e simulações (19)

Duane Michals, Andy Warhol, 1972

É um trabalho moroso o que conduz alguém da névoa do simulacro à luz clara e distinta de si. Um processo de tentativas e erros, dir-se-á. Isso, todavia, pressupõe uma ideia demasiado científica, a do ensaio, a da busca de uma verdade. Entre o simulacro e o si há um longo trabalho de fingimento, de ficcionalidade, de fazer parecer real aqui que ainda não o é. Toda a realidade é o resultado de um exercício contínuo de simulações.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Beatitudes (43) Meditação

Emilio Pettoruti, Meditazione, 1915

Recolher-se em si, abrir caminhos que só existem na vida interior, transitar por florestas luxuriantes e desertos inóspitos, atravessar mares procelosos sem que o corpo se mova, sem que os olhos se abram, sem que o ruído exterior entre casa dentro. Meditar não é apenas o meio de uma vida examinada, mas também o retorno ao jardim de onde se foi expulso pela ânsia do movimento e pelo ardil da dominação.

quarta-feira, 24 de março de 2021

A Garrafa Vazia 53

Romeo Mancini, Apocalisse, 1964
O ódio fervilha preso
ao cabresto
da noite.

Vielas varridas a varapau,
garrafas estilhaçadas
pelo chão.

Corpos ao desbarato,
o sangue acre
do sexo.

Tudo anoto no caderno
em que escrevo
na luz da servidão.

Março de 2021

terça-feira, 23 de março de 2021

A força da sociedade civil

Fernand Léger, Soldier with a Pipe, 1916
Quando vejo os liberais falar de Portugal dá-me imediatamente uma grande vontade de rir. Não que eles sejam particularmente dotados para o humor, mas porque não fazem a mínima ideia do país onde vivem. Para que o liberalismo possua algum sentido e não seja, caso aplicado, um inferno, seria necessário que Portugal possuísse uma sociedade civil forte, com poder de iniciativa e capacidade de organização. Um país que, para não se atolar na mais funda desorganização, precisa de recorrer à tutela de um militar – o vice-almirante Gouveia e Melo – para superintender o processo de vacinação da população só pode ter uma sociedade civil débil, incapaz de iniciativa e de organização.  

segunda-feira, 22 de março de 2021

Nocturnos 56

Richard Peter, Under the lantern, Dresden, 1935
Há segredos que só na noite se partilham, acordos que se fazem sob a luz vaga de um candeeiro, promessas que apenas as trevas podem ouvir. Há um logos para a luz do dia e outro para as sombras da noite. Nesses logos, vibram línguas tão diferentes que tradutor alguma as poderá aproximar.

domingo, 21 de março de 2021

Simulacros e simulações (18)

Johan Hagemeyer, Fashion Shop, Hollywood, 1930
Durante milhares de anos, a humanidade tentou representar a realidade. Com mais ingenuidade ou com mais talento. De modo mais impreciso ou com um excesso de precisão. Pensou-se cansada da mímeses e entregou-se à fantasia da simulação. A verdade, porém, é que ainda continua presa à imitação. Não da realidade, mas dos simulacros que vêm tomando conta dela.

sábado, 20 de março de 2021

A arte do possível

Nunca deixam de espantar-me as intervenções na comunicação social que, perante o confinamento, trazem sempre à colação as consequências terríveis que isso trará. Há casos em que essas preocupações se percebem, pessoas que são afectadas nos seus negócios ou empregos, às quais não se poderá pedir imparcialidade na reacção às decisões necessárias para conter a pandemia. Nos outros casos, porém, em que se apontam as terríveis desgraças que hão-de cair sobre as pessoas por causa do confinamento, há qualquer coisa de patético. É um facto que, por exemplo, o fecho das escolas tem consequências graves nas aprendizagens e no desenvolvimento de competência sociais dos alunos. Haverá, porém, uma solução exequível que permita combater a pandemia e evitar os efeitos secundários desse combate?

A política implica fazer escolhas, hierarquizar prioridades, perceber que não se pode ter tudo. Alcançar um bem maior implica muitas vezes perder outros bens que, apesar de grandes, são menores. Nenhum governo – pelo menos num país democrático – gosta de confinar os cidadãos. Nenhum governo gosta de ver a economia retroceder, o desemprego aumentar, as empresas a falir, as receitas ficais a diminuir, os gastos a aumentar drasticamente, os seus cidadãos a ficarem mais doentes e com menos recursos para combater a doença. Os governos não escolheram governar em pandemia. Quando muitas associações, que deveriam ser razoáveis, vêm chamar a atenção para as consequências nefastas do confinamento e das restrições impostas e se esquecem de dizer que as consequências de não haver confinamento seriam muito piores, não só estão a desinformar a população, como acabam por ter um efeito negativo no combate ao inimigo principal.

Agora que começamos a desconfinar é tempo de dar atenção aos efeitos colaterais da guerra ao coronavírus. Contudo, é preciso ter em atenção que as sociabilidades tradicionais não podem ser restauradas e que muitas coisas terão de mudar, talvez durante muito mais tempo do que aquele que imaginamos. Teremos de inventar novas formas de convivência, porque a pandemia não está debelada, nem de perto nem de longe. Teremos de interiorizar outras regras comportamentais. E é nesta mudança de atitude que muitas daquelas entidades, que traçam cenários apocalípticos por causa do combate à pandemia, deviam estar empenhadas. As coisas não são como nós as desejamos. São como são e é a isso que há que responder em cada momento, estabelecendo períodos e escolhendo o mais importante. Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. A política é a arte do possível. O resto é lançar confusão. 

sexta-feira, 19 de março de 2021

A Garrafa Vazia 52

Georges Bracque, El hombre del caballete, 1942
A náusea da nostalgia,
prego feito
de ferrugem,
armadilha
onde penduro
casaco e máscara.
Levo-os
se ponho os pés
no zinco da rua.

Fevereiro de 2021

quinta-feira, 18 de março de 2021

Simulacros e simulações (17)

Francis Picabia, Jardins de Saint-Cloud, 1909

Os homens não criam nem inventam jardins. Não há arquitecto que do fundo do seu talento retire inspiração para fazer nascer um espaço onde o mundo vegetal se manifeste e reine. Todos os jardins são cópias, reminiscências, simulações desse único e autêntico jardim de onde a espécie humana foi expulsa. Sonha-se com ele e fabrica-se um simulacro.

quarta-feira, 17 de março de 2021

Uma doença difícil de controlar

Pierre Dubreuil, La Place de L’Opera, 1909
A atitude de pânico das autoridades políticas e de saúde, tal como das científicas, perante a suspensão da vacina contra o COVID-19, da AstraZeneca, é sintomática do mundo em que vivemos. Aquilo que é um procedimento que deveria tranquilizar as populações relativamente aos procedimentos de segurança de raiz científica, pode tornar-se um problema para combater o vírus. Uma parte da opinião pública seguirá com muito mais facilidade opiniões que, sem qualquer fundamento, lhe proponham teorias inverosímeis do que acatará os conselhos fundados em procedimentos altamente controlados pelas melhores técnicas científicas.

O sonho do Iluminismo de construir um mundo habitado por uma população plenamente ilustrada choca com barreiras que parecem inultrapassáveis. Talvez a superstição não seja apenas um problema de acesso à cultura e à educação, mas exista no homem uma disposição para habitar o mundo escorado nessa superstição, a qual muito dificilmente cede perante as evidências, perante aquilo que um dia se chamou a luz natural da razão. Diante de uma sugestão de perigo, logo os homens se abrigam no guarda-chuva das crenças irracionais. A irracionalidade é um vírus que, enquanto o homem for homem, não encontrará vacina eficaz para o erradicar.  O mais que se poderá aspirar é torná-la uma doença crónica que se vai tentando controlar, sem grande expectativa que chegue o dia da cura.

terça-feira, 16 de março de 2021

Beatitudes (42) A bela ilusão

Rodney Smith, Anika on Bicycle, 1993
Árvores, folhas caídas, e tudo ainda parecer possível. Longos passeios de bicicleta, sem que um destino se perfile no horizonte, apenas as hesitações da vida, a decantação das promessas na espera da sua realização, apenas a leveza com que se olha o mundo e se recebe todas as dádivas que ele prodigaliza, se o tempo com as suas garras de aço ainda finge não se ter intrometido.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Nocturnos 55

Todd Webb, Broadway at Wall Street, New York, 1959
A noite compõe-se de pétalas caídas. Cada uma leva consigo um anseio de luz e a estranheza de mergulhar nas trevas. Sobre elas passam, mergulhados na indiferença, aqueles que pertencem ao reino obscuro da multidão. Aproximam-se e repelem-se como átomos em desvario, seguem o caminho imaginando possuir algum.  

domingo, 14 de março de 2021

A Garrafa Vazia 51

Gerhard Richter, Mediation, 1986
Bebo o vinho no copo
vermelho do poente.
Espero o mergulho
do astro
no oceano da noite,
as luzes de néon
para iluminar
os passos ébrios
com que atravesso
a ruela da vida.

Fevereiro de 2021

 

sábado, 13 de março de 2021

Alma Pátria 70: Trio Odemira, Menino de Oiro


Com uma diferença de cinco dias morreram os dois irmãos Costa, a alma do Trio Odemira. Este grupo musical popular pertencia ao conjunto de formações que combinavam a música popular portuguesa e a música latino-americana, da qual cantaram alguns êxitos. Tinham lugar assegurado nos programas de rádio e teriam um grande reconhecimento popular. No vídeo, cantam uma canção de José Afonso, uma daquelas que era possível ouvir na rádio. Se se consultar a autoria da canção - gravada pelo grupo em 1964, dez anos antes da queda do regime que determinava politicamente o que que os portugueses podiam ouvir, ler ou fazer - não se encontra lá o nome de Zeca Afonso. A autoria era do dr. José Afonso. E isto diz muito do que era Portugal naqueles dias. Um dr. sempre era um dr., mesmo que fosse oposicionista. Cada coisa no seu lugar, pois o respeitinho era uma coisa muito bonita.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Começou o segundo mandato presidencial

Vicente Vela, ¡Desátame!, 1999

Começou o segundo mandato presidencial. Como marco desse começo ficou o inédito silêncio do Presidente relativamente ao plano de desconfinamento apresentado ontem. Marcelo Rebelo de Sousa vai agora mostrar o que é. O primeiro mandato de qualquer Presidente é dirigido a captar votos no território político adverso. No segundo, é a tentativa de fazer chegar ao poder os seus. Para além das palavras de ocasião, a solidariedade com o governo acabou ontem. Se o desconfinamento correr mal, o PR não terá nada a ver com isso. A partir de agora vamos assistir, de uma forma mais clara, ao confronto entre os talentos políticos de Marcelo e de Costa, não para resolver os problemas do país, mas na utilização desses problemas e da sua eventual resolução como arma política relativa ao poder. Costa para se manter, Marcelo para apeá-lo, a não ser que a direita persista no descalabro em que se encontra. Seja como for, a direita tem agora, claramente, um amigo em Belém. Quando se diz que o PR vai ser mais exigente com o governo no segundo mandato, isso significa que fará o possível para que, pelo menos, não seja reeleito nas próximas legislativas. Acabou-se o casamento de conveniência. O PR desatou-se do governo. É a natureza das coisas.