domingo, 11 de dezembro de 2011

Lars von Trier, Melancholia


O último filme de Lars von Trier pode ser visto como uma alegoria excessiva à experiência da modernidade ocidental. A inevitabilidade da catástrofe, o choque da Terra com o planeta Melancholia, e a vida comum, são os temas literais do filme. Este oferece, contudo, um elevado número de leituras possíveis que, longe de se contradizerem, devem ser vistas como um dispositivo de mútuo reforço. Ensaiemos duas leituras.

Numa leitura fraca, poderíamos ver na aproximação e choque do planeta Melancholia com a Terra uma metáfora sobre a vida no nosso planeta. A melancolia, essa falta de entusiasmo e de indiferença pela acção, coloniza a vida da espécie humana. No momento de maior azáfama dos homens (veja-se como o trabalho e a acção são tão valorizados), von Trier mostra-nos que todo o trabalho humano, todo o excesso produtivo que cobre a terra, é um sintoma de um estado depressivo. Não há um sentido para o casamento de Justine, não há um sentido para as preocupações de Claire. Contrariamente ao romantismo, onde a melancolia era uma experiência enriquecedora da alma, no filme de von Trier ela é uma catástrofe apocalíptica. O mundo morre de melancolia, morre de falta de sentido. Não há cerimónia, ou ciência ou gruta mágica que nos forneça um sentido salvador do munto perante a invasão da melancolia.

Numa leitura forte, podemos observar o choque entre a crença iluminista na liberdade e a fatalidade trágica dos gregos. Deste ponto de vista, Melancholia é uma alegoria sobre a crença europeia em fundar a vida e a acção na liberdade. A colisão entre a Terra e o estranho planeta Melancholia é marcada pela estrita necessidade que as leis da física mecânica explicam. Perante essa inevitabilidade, nem a inconstância de Justine, nem a crença na ciência de John e do filho, nem o temor de Claire (irmã de Justine, mulher de John e mãe do respectivo filho), nem a gruta mágica, que Justine cria para o sobrinho, são elementos de salvação. A vida comum, com a sua crença inquestionada no livre-arbítrio, vida na qual se deve incluir a própria ciência, é impotente perante a inevitabilidade. A desmesura entre as forças da liberdade e as da necessidade mostra que não há lugar para qualquer salvação. Não é por acaso que Justine diz, a determinado momento, quando a colisão se aproxima, que a vida é má. A passagem de von Trier pelo romantismo permite lançar uma ponte para a tragédia grega e para a inelutabilidade do destino do herói trágico. Em linguagem nietzschiana, von Trier explora o conflito entre o optimismo da modernidade ocidental e o pessimismo presente no pensamento trágico, para captar dessa forma uma imagem desoladora da aventura europeia desde o Renascimento.

Melancholia é tudo isso, a primeira e a segunda leituras, um estado depressivo e o reconhecimento da inelutabilidade, do fado, na vida, para além de um exercício estético provocador pela sua beleza e pelo kitsch que está presente nessa mesma beleza.