sexta-feira, 20 de julho de 2012

O velho camponês

Marc Chagall - La Revolución (1937)

Ontem, em mais de 80 cidades espanholas, as pessoas saíram às ruas para protestar contra a política de austeridade que o governo espanhol, sob a orientação da troika, está a impor. Se em Portugal a reacção fosse idêntica, deveriam ter ocorrido grandes protestos em cerca de 17 cidades. Contrariamente ao que se passa em Espanha, a reacção dos portugueses a uma política muito mais brutal é praticamente nula. Se o governo está completamente ensarilhado deve-o a si mesmo. Até agora, com a excepção dos médicos, os portugueses, quando são castigados pelo governo, não apenas aceitam a bofetada como dão a outra face e, se for preciso, ainda abanam a cauda. Sei que por vezes se ouve rosnar, mas deve-se mais a uma impressão na garganta do que a um protesto efectivo.

Esta estranha quietude, esta indiferença perante o próprio destino, esta incapacidade de indignação é algo que deveria dar que pensar. Há dois pontos de vista que se confrontam sobre o assunto e que me parecem perigosos. Na esquerda, o desânimo por se estar a perder uma oportunidade tão propícia para a revolução social, pelo menos para a agitação de rua e conflito político fora do parlamento. Na direita, o contentamento com a conduta dos portugueses, com a sua cordialidade e devoção aos desígnios dos governantes e daqueles que os guiam.

Há na reacção dos portuguesas uma sabedoria ancestral, uma desconfiança, que parece inata, na ideia de revolução social, um desejo contínuo de paz social, um amor à tranquilidade da vida e à amenidade dos hábitos. A estratégia da esquerda raramente tem em conta esta idiossincrasia nacional. A esquerda sonha com o movimento social e o conflito, sonha com as imagens que lhe vêm de fora, delira com um mundo de gente nas ruas e muitas bandeiras vermelhas no ar. Parece que isso tem pouco a ver connosco. Por seu turno, a direita julga que esta atitude dos portugueses é um óptimo sinal, que assim conseguem mostrar aos mercados e à senhora Merkell que são alunos bem comportados e gente reverenciadora da autoridade. A direita não percebe que o estado abúlico da contestação social é o outro lado da ausência de iniciativa, essa iniciativa que faz funcionar a sociedade, que dinamiza os mercados locais, que cria empresas, que fomenta o bem comum através de acções individuais ou colectivas.

O que nos estão a dizer os portugueses com a sua atitude? Que não querem saber nem do socialismo nem do liberalismo, que esses assuntos lhes são estranhos, radicalmente estranhos, coisas de estrangeiros, fatos pronto-a-vestir que não se adequam ao nosso corpo social. Isto não significa que essas ideologias devam ser substituídas pela ideologia do patriotismo, esse último refúgio de um canalha, como o sublinhou Samuel Johnson (Patriotism is the last refuge of the scoundrel). Isto não significa que esquerda e direita não tenham lugar em Portugal. Têm-no, mas precisam claramente de se adequar ao povo que somos e às circunstâncias em que vivemos. Precisam de compreender que uma parte do país ainda é pré-moderna e que a modernização das atitudes e das crenças é muito recente e bastante superficial. 

Raspam-se, muito ao de leve, os comportamentos aparentemente mais pós-modernos e logo surge o velho camponês, com as suas tradições, rituais e medos ancestrais, mas também com um certa sabedoria irónica e cínica sobre o mundo e os seus senhores. No fundo, as elites políticas, empresariais e sindicais vivem num universo estranho e rarefeito, um clube restrito que nunca abriu a porta ao velho camponês que ainda vive sob a pele de muitos de nós. Não quer isto dizer que amanhã o velho camponês não perca a cabeça e faça um disparate, não significa que esta bonança não tenha dentro dela uma tempestade violenta. Mas um tempestade não é um revolução.O camponês, na sua pobreza atávica, não gosta de desordem nas ruas e desconfia de grandes esmolas.