quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A morte e a vida

Lytras Nikiforos - Antigone in front of the dead Polynices (1865)

Estava, no intervalo entre duas aulas, na biblioteca da minha escola a ler. Olho para uma estante ao meu lado e vejo a obre prima A Cidade Antiga, do historiador francês do século XIX, Fustel de Coulanges. A obra foi originalmente publicada em 1864 e revista em 1875. Do ponto de vista histórico, deve estar completamente ultrapassada. Ela sublinha o papel da religião no desenvolvimento social e político da Grécia e de Roma antigas. Para lá daquilo que a investigação histórica posterior pôs em causa, a obra é um clássico da língua francesa, devido à qualidade do francês em que foi escrita. Peguei nela e li o primeiro capítulo, ainda um prazer estético mesmo depois de passar para português. Trata das crenças sobre a alma e a morte, as quais se teriam formado muito antes destas formas civilizacionais, a cidade grega e o império romano, terem atingido o apogeu e declinado até desaparecerem. 

Independentemente das crenças em questão, o que ressalta é a importância da morte na configuração da vida. Entre ambas há uma continuidade, a qual se reflecte na organização da própria sociedade. A morte não é apenas o que sucede à vida, mas ainda um lugar onde a vida se dá e o qual tem de ser cuidados pelos vivos. O resultado dessa relação com a morte é, surpreendentemente, uma vida mais densa e mais plena, uma vida mais completa. O que se passa nos nossos dias é qualquer coisa de completamente diferente. A sociedade burguesa, contrariamente às sociedades de índole aristocrática, tem vergonha da morte, esconde-a, prende-a em redutos quase inacessíveis, e desfaz-se das provas da sua evidência o mais asséptica e rapidamente possível. Apesar dos meios de comunicação social terem um gosto perverso pela morte, esta surge sempre como uma ficção, entendida esta como uma falsificação do real.  São processos de censura e de denegação.

Esta rasura da morte, por outro lado, foi acompanhada pela crescente frivolidade da vida colectiva e individual. Aquilo que se torna patente nos costumes gregos e romanos - aliás, como de muitos outros povos - é que o sentido pleno da vida só se manifesta se contiver explicitamente a morte. É ela que dá substância a uma vida que valha a pena ser vivida. A rasura da morte nas nossas sociedades é apenas a manifestação de uma vida frágil, desvitalizada e que perdeu qualquer sentido, para além dos exercícios frívolos que o entertainment organiza. Nas sociedades tradicionais, a vida ao conter em si a morte mostrou-se exuberante; nas sociedades actuais, ao expulsar a morte do círculo da vida, esta tornou-se frágil e sem impulso vital.