sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A mais tenebrosa das sociedades


Um dos paradoxos da estúpida sociedade que estamos a criar liga-se com o tempo de trabalho. Em linhas gerais, os horários de trabalho tendem a crescer – em alguns casos começam a aproximar-se dos velhos e tenebrosos tempos da primeira revolução industrial, no século XIX – e ao mesmo tempo um número cada vez maior de pessoas não encontra, por muito que se esforce, um lugar para trabalhar.

O caso português é sintomático. A ineficiência do país não resulta do horário de trabalho, mas da baixíssima qualidade da gestão que é efectuada pelos dirigentes, tanto de empresas privadas como de instituições públicas. O aumento do horário de trabalho e a redução dos feriados e dos dias de férias não tornam o país mais competitivo e mais rico. São antes a consagração da incompetência, da desorganização e da falta de qualidade dos gestores, públicos e privados, que dirigem as nossas instituições.

Sei que há países, como a China e a Índia, onde se trabalha muito mais horas do que em Portugal. Países onde os trabalhadores, apesar do esforço, continuam miseráveis. Também sei, porém, que existem países onde se trabalha menos horas e menos dias por ano do que em Portugal, onde as pessoas produzem muito mais e são recompensadas devidamente. Entre estes dois modelos, a elite governamental e certos – não todos, felizmente – meios empresariais escolhem a aproximação ao modelo asiático.

Mas aumentar o tempo de trabalho não significa apenas premiar a ineficiência, a preguiça de pensar e organizar, a incapacidade de inovar nas tarefas, a indisciplina,  significa ainda um exercício sádico de humilhação das pessoas. Estamos a tornar a vida num autêntico inferno. Ou puro ócio e degradação individual por ausência de emprego e de utilidade social, ou um exercício de rapina sobre o bem mais precioso que foi dado ao ser humano, o tempo de vida. Cada vez menos se tem tempo para a família, para as Igrejas, para os clubes desportivos e culturais, para as organizações políticas, para a educação permanente ao longo da vida, para a diversão pura e simples. Tudo isto está a ser sugado.

Estamos a construir a mais tenebrosa das sociedades, aquela que reduz a vida do homem ao trabalho, transformando o velho animal rationale num mero animal laborans, que não se distingue já de outros animais cuja vida se centra na mera sobrevivência. Estamos a construir uma sociedade que destrói tudo – cultura, lazer, religião, vida do espírito, amizade – em nome de uma suposta eficiência económica, cuja avidez e maldade não têm limites.