segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Robert Lorenz, As voltas da vida



Este novo filme de Clint Eastwood não é, tecnicamente, um filme de Eastwood, mas tem tudo para ser mais um filme do velho mito do cinema americano. Foi produzido por Eastwood, realizado por um seu assistente de há longos anos, Robert Lorenz, e é protagonizado por ele. Não há, no filme, surpresas e os estereótipos sobre a sociedade americana alinham-se com a sequência previsível no pensamento ideológico de Eastwood. No entanto, o filme não deixa de dar matéria ao pensamento, pois encena, mais uma vez, uma reflexão sobre questões essenciais que dizem respeito à vida dos homens.

O basebol serve como metáfora sobre a vida em sociedade. O filme gira em torno de um olheiro, Gus Lobel (Clint Eastwood), que procura jovens promessas para um clube profissional. Lobel, porém, está velho e sofre de glaucoma. Perder a visão não é a melhor notícia para quem tem por modo de vida ver jogar jovens promessas. O filme é também uma reflexão sobre o envelhecimento, o processo da sua negação, o mirífico triunfo sobre ela, triunfo fundado na experiência individual, na seriedade profissional, mas também na solidão e dureza do herói americano, um dos cultos de Eastwood.

Uma abordagem desatenta poderia pensar que tudo gira em torno de um conflito de gerações. Uma nova geração dentro do clube estaria prestes a correr com a anterior. No entanto, não é isso que é o fundamental. Na economia moral do filme, os jovens distribuem-se com equidade por ambos os campos morais, pelos heróis e pelos vilões. Na perspectiva moral, o que está, de facto, em jogo é a lisura de processos. Por três vezes, o comportamento oportunista, fundado na manipulação das aparências, é derrotado por aqueles que são honestos e frontais. A frontalidade é mesmo uma das qualidades morais mais importantes, como é hábito nos filmes de Eastwood.

Contrariamente ao que pensa o crítico de Público, o conflito entre Gus Lobel, o olheiro que fazia as coisas à moda antiga, indo aos locais ver os jogadores em acção, e aquele que quer ficar com o seu lugar, um homem que colige estatísticas no computador sem pôr um pé nos campos, não representa um reaccionarismo que expressa a dificuldade de Eastwood em lidar com as modernidades do mundo, com os gadgets. O problema não é esse, mas um velho conflito que vem do tempo do Iluminismo entre uma sabedoria proveniente de uma longa experiência (o velho saber de experiência feito) e um conhecimento meramente racional e, na prática, a priori daquilo que deve ser a realidade.

O conflito entre a experiência histórica – que foi um dos principais argumentos da reacção à Revolução Francesa, como se pode ver em Joseph de Maistre, Louis de Bonald ou Edmund Burke – em oposição aos imperativos ideais dados a priori pela razão – perspectiva onde sobressai Kant – é agora encenado no filme em torno do velho Gus Lobel. O que está em jogo não é a reacção ao computador, mas o desprezo de Eastwood por aqueles que não sujam as mãos na porcaria da realidade, por aqueles que substituem o fluir concreto da vida e o acumular da experiência por meras virtualidades, com as quais pretendem julgar os outros e o mundo. É aqui que se centra o reaccionarismo heróico de Clint Eastwood.

Por outro lado, e talvez seja esse o segredo que torna o actor e realizador americano apreciado por gente tão diversa no espectro ideológico, o que está em jogo é a recusa da burocracia. O computador do concorrente de Gus Lobel não representa a máquina – e a consequente recusa reaccionária da máquina – mas a burocracia. O que este filme de Eastwood permite, mais uma vez, pensar é a conexão entre a razão pura a priori e a burocratização asfixiante do mundo da vida, substituído por estatísticas e relatórios. O filme representa a vitória da vida vivida, da experiência histórica, sobre a burocracia dominante, sobre a razão desencarnada e descorporalizada. E é isto que torna Clint Eastwood simpático, mesmo para quem não admira particularmente o seu republicanismo político.