domingo, 20 de janeiro de 2013

Meditações taoistas (11)

No governo do homem, no serviço do céu,
nada como temperança.
Lao Tse, Tao Te King, LIX

Durante meses meditou, olhando a balança suspensa do tecto. Observava o mecanismo perfeito, a figura com que a exactidão se adornou, o sentido que nascia do equilíbrio dos pratos. Que mistério se esconderia naquele artefacto que os homens um dia, para regularem as suas trocas, teriam inventado? Por vezes, se a meditação se prolongava, caía num estado de sonolência e estranhas visões perpassavam por si. O céu e a terra abraçavam-se e, com um ardor desmedido, entregavam-se a singulares jogos de amor.

Foi assim que viu nascer Thémis, a deusa que, filha do céu e da terra, pertencia à estirpe titânica. Uma visão mostrou-lhe que da mãe, Geia, recebeu o corpo terrestre com que, na sua longa meditação, a tinha sonhado e do pai, Urano, sem que alguém compreenda o mistério da herança, veio-lhe um espírito de equilíbrio e de moderação. Quando, numa longa noite de insónia e recolhimento, a viu adulta e bela, descobriu-lhe na mão a balança que ele próprio contemplara durante meses. Sim, a balança que caía do tecto de sua casa abriu-lhe o espírito para essa outra balança que trazia a justiça aos homens.

Então decidiu contar a história dos deuses, deixar testemunho sobre a terra como os imortais vieram à existência e que tesouros escondiam as suas imagens. Nas praças, ele falava acima de tudo do equilíbrio da balança, de como o mais leve sopro enlouquecia os pratos e introduzia o caos na vida dos homens e das cidades, um caos sulfuroso que aquele belo mecanismo, na mão da deusa, media sem parar. O importante, dizia então, é descobrir o limite, saber com precisão o tamanho do passo a dar, a cor e a textura da palavra a dizer, a firmeza com que a mão fechada deve castigar o excesso e a arrogância.

Nos dias mais quentes, o poeta sentava-se, solitário, debaixo de um árvore e meditava longas horas sobre o poder do Sol e a força do calor. Depois, ao retornar ao contacto com os outros, dizia: um mundo vulcânico habita sob o império da harmonia e é preciso que, a cada instante, aquele que é sábio equilibre os pratos da balança para que a lava incandescente, que dorme no fundo do homem, não encontre uma porta de saída e destrua o mundo.