sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O bode expiatório


Quem com ferros mata, com ferros morre. O recurso a este velho provérbio deve-se a José Sócrates. Quando chegou ao poder, a primeira coisa que fez foi arranjar bodes expiatórios. Começou pelos juízes, mas estes não se prestam para vítimas sacrificiais. São poderosos e, por algum estranho acaso, os políticos temem-nos. Dos juízes, Sócrates passou para os professores. O professorado não superior é um grupo social que, à partida, ninguém teme e presta-se mesmo para ser imolado. Desprezados pelos de cima, invejados pelos de baixo, os professores foram o bombo da festa nas mãos de Sócrates e da ministra da altura. Fez-se de tudo para os humilhar e desprestigiar aos olhos do público. Sócrates pensou neles como os bodes expiatórios perfeitos, cujo sacrifício redimiria a pátria e traria a glória à sua governação.

Corrido da governação, Sócrates parece agora não gostar de se ver como o bode expiatório das actuais políticas. Eu percebo-o bem, mas ele (e a função pública, claro) apenas está a ser vítima de uma estratégia que ele usou cruelmente. Sejamos claros. O que se está a passar, a crise terrível que nos assola, o défice que não pára de crescer, a austeridade sem fim, a impotência da nossa economia, nada disso tem José Sócrates como o único ou mesmo o principal responsável. Esquecer a terrível crise do subprime nos EUA, em 2008, e o seu impacto posterior nas crises da Europa do Sul é intelectualmente desonesto. Como não é honesto atribuir responsabilidades a Sócrates por aquilo que nos foi imposto pela União Europeia. Convém ao governo manter a ficção da culpa última e única de Sócrates. Ele terá as suas responsabilidades, mas as que lhe atribuem são exageradas e ficcionais. É utilizar um bode expiatório para justificar o rotundo falhanço do actual governo.

Isto não significa que eu absolva Sócrates. Ele não o merece. E não o merece porque foi ele que inaugurou, nos tempos recentes, a política fundada em bodes expiatórios. Quando uma comunidade chega a esse patamar, podemos perceber o grau de degradação cívica que se atingiu. Eleger bodes expiatórios significa isolar indivíduos ou grupos para serem perseguidos pelo todo. Significa também mostrá-los como vítimas sacrificiais que devem ser imoladas para conjurar os males que nos assolam. Uma política baseada em bodes expiatórios significa que se abandonou o uso da razão e se confia o destino da comunidade ao pensamento mágico. E este é o problema. Desde Sócrates que somos governados não pela razão mas por crenças e poderes mágicos. O desastre está aí para o provar.