quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Transfiguração da pátria (14) Jardim à beira-mar

Arnold Böcklin - A peste (1898)

O vendaval que sobre a terra cai
e deixa um perfume de coisa morta
traz um silêncio de veludo,
passos de lobo no frio da floresta.

Ó quaresma sem fim, terra de sal,
quantas lágrimas caíram pela face
e deixaram sulcos de lava
na pálida palidez da alma cansada?

Erguem-se as mãos para os céus
e na cidade, escombros,
animais putrefactos, a velha epidemia,
homens como quadrilha de ratos.

E se ainda não tens a alma pequena,
deixa que a volúpia desça
e faça desta terra um jardim,
sonhos naufragados na água do mar.