sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Iniciativa


Julgamos que o conflito central que, nos dias de hoje, divide a sociedade gira em torno dos serviços de educação pública, de saúde e de protecção social. Este conflito é real e afecta a vida das pessoas, mas é apenas um conflito instrumental, uma arma utilizada numa guerra que tem outros objectivos estratégicos. O que está em jogo nas nossas sociedades – e em Portugal mais que noutros lugares – é um conflito sobre quem tem poder de iniciativa. Se escutarmos os governantes ou dermos atenção aos economistas de serviço, parece que o poder de iniciativa deveria ser o bem melhor distribuído na sociedade. Isto, porém, é uma falsificação deliberada.

Poder de iniciativa não é um dom que umas pessoas têm ou cultivam e que outras não têm ou desprezam. O poder de iniciativa é uma capacidade pessoal com raízes profundas no meio social. A iniciativa mobiliza a força de vontade do indivíduo, mas também a existência de um meio social propício, de uma educação adequada, de apoios e incentivos sólidos. O que está em jogo resume-se numa questão: quem são os indivíduos, e a que grupos sociais pertencem, que podem ter iniciativa? A retórica do empreendedorismo, tão ao gosto dos governantes, serve para mascarar uma outra verdade. As elites sociais – aquelas que, no discurso, valorizam a iniciativa – não têm qualquer interesse que a grande massa da população desenvolva o seu poder de iniciativa, que se torne autónoma, que rasgue um caminho próprio. Pelo contrário, precisam de uma multidão de gente submissa, à espera de ordens.

Estamos a assistir, através da degradação da escola pública, da limitação do acesso à universidade, da destruição dos serviços de saúde e protecção social, a um processo de drástica diminuição do poder de iniciativa da generalidade das pessoas, ao mesmo tempo que, demagogicamente, se proclama a bondade do empreendedorismo. Como se sabe, o capitalismo desenvolveu-se em guerra contra a sociedade de castas, contra as hierarquias sociais fechadas. Esse tempo acabou. As elites dominantes parecem ter um claro programa de retorno a uma ordem social hierarquizada e fechada, a uma nova Idade Média, fundada não em Deus mas no dinheiro. Para tal, controlam, através do Estado e do comportamento espúrio dos governantes, os mecanismos sociais que permitem desenvolver o poder de iniciativa. Há que impedir que a imensa maioria das pessoas seja autónoma. Para essas elites, a iniciativa é um bem que deve ser escasso e estar nas mãos certas, nas suas. O resto são fantasias para enganar tolos.