Alexander Harrison - Solidão (1893)
Façamos com que o nosso
contentamento dependa de nós, desprendamo-nos de todas as ligações que nos atam
a outrem, ganhemos sobre nós o poder de viver sós e de viver assim à nossa
vontade. (Montaigne, Essais I)
Há nesta pretensão de
auto-suficiência, erigida como ideal regulador de vida por Michel de Montaigne,
uma monstruosidade que desafia o pensamento. Essa monstruosidade tinha sido
pensada previamente por Aristóteles, quando, na Política (1253a), define o homem como um animal político (ou animal social, noutras traduções),
acrescentando que quem, por natureza, não tiver cidade, não viver com os
outros, ou é um ser decaído ou sobre-humano.
É certo que o homem auto-suficiente de
Montaigne não é, por natureza, alguém destituído de sociabilidade, alguém
monstruoso. A separação do outro e o corte com a comunidade são projectos que
visam consolidar o poder sobre si e tornar o desejo de solidão em natureza
solitária. A monstruosidade é o resultado de um projecto, o qual visa a transformação
da natureza humana.
Quando falamos na modernidade e olhamos para o seu desígnio racionalista, esquecemos a monstruosidade deste homem desenhado por Montaigne e
que se constituiu num dos ideais do mundo moderno. Qualquer avaliação do projecto da modernidade deverá ter em conta todos os monstros que foram apresentados como ideais reguladores do ser humano. A monstruosidade não foi inventado com Frankenstein, de Mary Shelley.
O Homem é um ser gregário.
ResponderEliminar"Sozinho só se for um Robison Crusoe..."
Abraço
O interessante desta citação de Montaigne é que ela prefigura o ideal burguês de auto-suficiência económica. No entanto, tanto neste ideal como em Montaigne, essa auto-suficiência está dependente daqueles a quem o auto-suficiente domina, ao mesmo tempo que oculta essa dominação e essa dependência.
EliminarAbraço