terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O romance e a caverna platónica

Rafael Barradas - Cavernas (1917)

Recuperação de textos, em maré de cansaço, do meu antigo blogue averomundo, retirado de circulação. Texto de 07.02.2010.

A intuição de Nietzsche, que compreende Platão como um percursor do romance moderno, capta, talvez para além daquilo que o próprio Nietzsche pensava, uma relação essencial entre a filosofia platónica e a narrativa moderna. O essencial da conexão entre Platão e o romance moderno (e aqui poderia pensar outras formas de arte) não se encontra apenas na estrutura dialogada dos textos platónicos ou na fina psicologia com que são retratados alguns personagens, nem sequer nas peripécias dos diálogos ou nas técnicas narrativas.

O essencial dessa conexão encontra-se naquele que é, porventura, o texto mais famoso de Platão, a alegoria da caverna  (República, livro VII; pode ler aqui). Neste texto, como na generalidade da sua filosofia, Platão divide o mundo em dois. O mundo dentro da caverna, onde os seres humanos se encontram presos às suas necessidades naturais e às ilusões ideológicas que lhe estão associadas. Fora da caverna, existe um outro mundo, um mundo onde apenas se pode aceder pela libertação da necessidade natural e das ilusões provocadas por essa necessidade. Toda a filosofia não é mais do que o esforço de alguns prisioneiros para se libertarem da sua condição natural e das ilusões inerentes a essa condição.

O que tem, no entanto, tudo isto a ver com a literatura, nomeadamente com o romance moderno? O romance moderno, a literatura e a arte em geral, não são outra coisa senão descrições, digamos assim, daquilo que se passa dentro da caverna. Os romances, todos eles, falam apenas e só da caverna e das acções que os prisioneiros da caverna levam a efeito dentro dela. A caverna platónica com os seus prisioneiros e a verdade que eles pensam possuir é o arquétipo do mundo humano, e é deste mundo que o romance trata. Um exemplo. D. Quixote, de Cervantes, é tido como o primeiro romance moderno. Não é curioso que o personagem principal sofra de ilusões cognitivas que o levam a distorcer a realidade de tal modo que confunde moinhos com gigantes? Quixote é uma personagem da caverna platónica, e a Mancha, uma refiguração dessa caverna. Poder-se-iam multiplicar, ad nauseam, os exemplos.

Deste modo, todo o romance moderno vive da intriga gerada pela confluência das nossas necessidades naturais, manifestadas em desejos, paixões, sentimentos, etc., e as ilusões cognivitas de que somos portadores. Isto tem uma consequência. O romance, e acrescentaria toda a arte, vive sob o império da necessidade. Não me refiro à liberdade do artista enquanto criador, mas aos mundos desenhados nessas obras de arte. Necessidade e ilusão, eis a matéria do romance e, por extensão, da arte. Mas nós só sabemos que a ilusão não é a verdade e a necessidade não é a liberdade por oposição ao fora da caverna, à crença filosófica na existência de um mundo onde liberdade e verdade são a condição dos seus habitantes, se é que existe algum.

A alegoria da caverna não é apenas uma metáfora sobre a condição de possibilidade da filosofia. É ela que torna possível todo o romance e as respectivas intrigas no espaço da caverna. Sem a caverna platónica e o mundo fora da caverna (isto é, sem a cisão ontológica, para usar o filosofês), não haveria literatura nem arte em geral. Fundamentalmente não haveria romance moderno. Isto é assim mesmo que, paradoxalmente, exista literatura e arte muito antes de Platão ter visto a luz do Sol. Aqui, porém, é preciso distinguir o nível cronológico e o nível ontológico. O sentido ontológico, de que a alegoria da caverna é o símbolo, é a condição de possibilidade de toda a arte em geral.