sábado, 29 de março de 2014

A morte do grande planificador

Stalin dead

Mas, de repente, a 5 de Março, Stálin morreu. Esta morte rompeu o gigantesco sistema de entusiasmo mecanizado, da ira popular e do amor popular estabelecidos por ordem do comité do partido.

Stálin morreu fora do plano, sem ordem dos órgãos de direcção. Stálin morreu sem ordem pessoal do próprio camarada Stálin. Nesta liberdade, neste voluntarismo da morte havia qualquer coisa de dinamitador, contradizendo a própria essência profunda do Estado. Grande perturbação abrangeu as mentes e os corações. (Vassili Grossman, Tudo Passa, p. 31)

Mais uma vez somos confrontados com a questão: para quê a literatura? E a resposta não poderia ser mais clara do que neste extracto do romance de Vassili Grossman. O autor revela-nos aquilo que sem a literatura não seria visível. Se a vida não é o lugar onde se manifesta a liberdade, então esta refugia-se e revela-se na morte. Não estamos perante uma asserção metafísica, mas diante do uso de uma estratégia literária, a ironia. O supremo planificador e ordenador da vida de milhões de pessoas é impotente para planificar e ordenar a sua morte, esse momento tão íntimo e intransmissível. E nestas poucas linhas está todo o drama e toda a limitação do comunismo. O plano, a planificação e o planificador são impotentes perante a morte. Uma sociedade onde a vida era planificada ao mais ínfimo pormenor vê-se confrontada com a irreverência libertária da morte. A liberdade assomava onde seria menos esperada e menos deseja, ela que não era desejada em lado algum. Tudo isto torna-se visível porque a literatura, através dos instrumentos retóricos e poéticos de que dispõe, no-lo dá a ver. É para isto que serve a literatura, para dar a ver o invisível.