quinta-feira, 22 de maio de 2014

A odiosa perfeição

Reimundo Patiño - A Queda de Ícaro (1973)

Um texto novo a intercalar nos textos dos cadernos do esquecimento provenientes do meu antigo blogue averomundo.

É terrível a perfeição. Não me refiro àquela perfeição que resulta do trabalho aturado e da desconfiança daquele que faz esse trabalho com o resultado da sua produção. Essa resulta de um exercício céptico e de uma descrença na virtude do próprio labor. Não, refiro-me à perfeição imaginada que invade a vida de todos os dias, os planos de cada um e os projectos colectivos. A perfeição imaginada é a mais fácil das perfeições e também a mais perigosa. Imagina-se uma coisa e, nesse acto, infunde-se a crença de que tudo correrá conforme os desejos. A nossa faculdade de desejar, porém, tem uma enorme capacidade de se enganar e de espalhar o véu da ilusão sobre a realidade. Por norma, a realidade não se converte ao desejo, resiste-lhe, vira-lhe as costas, ri-se. A perfeição final vai-se transformando num sonho cada vez mais longínquo, até que se torna em pesadelo vivo. Não há pior inimigo do que a perfeição, esse projecto de cabeças ocas e vontades vazias.