sábado, 31 de maio de 2014

Pobre anacrónico

Pedro de Berruguete - Bessarion (1476)

Um texto novo a intercalar nos cadernos do esquecimento provenientes do meu antigo blogue averomundo.

Cheguei sempre tarde a tudo. Não é um problema de pontualidade, mas de anacronismo. Sou anacrónico, completamente. Por exemplo, a minha geração viveu embevecida com o rock. Para dizer a verdade, nunca consegui gostar de rock. Tentei, confesso que tentei, mas o meu anacronismo congénito nunca me deixou. Preferia ouvir música francesa, coisa que ninguém digno de consideração fazia nesses dias. Passaram por aqui, há dias, os Rolling Stones e um frémito de nostalgia correu país fora. Não consegui perceber a emoção. Não me consigo transferir para os corações derretidos por tais memórias. Sou anacrónico e isso é o pior que pode acontecer a uma pessoa que vive nos dias de hoje.

Mesmo numa área tão excêntrica como a filosofia ser anacrónico tornou-se sinónimo de estar excluído. Gosto de ler aquilo que me cai em frente dos olhos sub specie aeternitatis, isto é, como se fosse uma verdade eterna, a qual se manifesta, na leitura, para mim. Isto revela, porém, a mais pura insensatez. Não há verdades eternas e a ciência faz-se através de um progresso histórico, como se a verdade precisasse da demora do tempo e do esforço aturado das gerações para se dar a conhecer. Ora para que serve uma verdade que apenas está disposta a despir-se para o último dos homens dormir com ela, recusando-se a todos outros, mostrando-lhes, quanto muito, mais um milímetro da coxa? Nada de particularmente excitante.

O meu anacronismo é uma revolta contra o espírito dos tempos modernos e dos seus sacerdotes, os cientistas, as gentes da moda, os vendedores de novidades, os empreendedores. Acreditam no progresso em direcção à verdade e à felicidade, crêem na superação – dialéctica ou não – dos estádios anteriores, e, humildemente, aceitam a tenaz disciplina da razão para assim contribuírem para a futura vitória do conhecimento e do bem-estar. Tomado por um egoísmo execrável, pergunto-me: para que serve a futura grande vitória da ciência se eu já estarei morto, se já estaremos todos definitiva e irremediavelmente mortos? Compreendo muito bem o monge copista medieval na sua tarefa de preservar as verdades eternas, ou um erudito do Renascimento e os seus múltiplos cuidados filológicos para devolver a pureza dos textos onde a verdade se oculta. Gosto de ler Homero, Platão, Aristóteles ou Ésquilo como se não houvesse amanhã, nem superações, nem tempo, nem história, nem progresso. Pego nos romances ou nas obras de hoje desse modo, mas já não há quem queira escrever sub specie aeternitas. Os modernos adiaram a verdade e a vida para quando estivermos todos mortos. Não tenho remissão.