segunda-feira, 19 de maio de 2014

Uma cultura suburbana

Egon Schiele - Subúrbio I (1914)

Há uma cultura suburbana terrível que tomou conta do Estado e das instituições. O primeiro contacto prático que tive com essa cultura foi ao nível da educação. Há empresas que preparam, putativamente, as escolas para serem avaliadas pela inspecção. No pobre linguarejar com que tentam enquadrar uma realidade complexa como a instituição escolar, descobri que os alunos deixaram de ser alunos e passaram a chamar-se clientes. Isto, com a intervenção da troika, está a tomar conta dos serviços públicos, nos quais existe uma clara tentativa de substituir uma lógica cívica por uma lógica económica (ver Público). Este deslumbramento suburbano perante as lógicas e as denominações de mercado nem se deve, muitas vezes, a uma conduta moralmente repreensível. Deve-se, antes, a uma profunda ignorância do sentido das palavras e a um arrebatamento parolo com as modas do dia. Imaginemos apenas o caso da educação. Um aluno tem deveres, entre eles o de estudar. Um cliente - supondo que paga de alguma maneira - tem apenas direitos, o direito de ser servido. Só quem não pensa, pode achar que as palavras não têm importância. Doentes e alunos não são clientes, são sujeitos portadores de direitos e de deveres, os quais não são reguláveis pelas lógicas mercantis que instauram a relação fornecedor-cliente. Nada há de mais irritante do que esta imposição de uma cultura suburbana por parte dos múltiplos desbiografados que se multiplicam nos diversos nichos de poder.