quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Verdade e mentira


Exigem a veracidade das minhas palavras, mas poderei ser verdadeiro naquilo que digo? Se tudo o que penso e sinto é habitado por contradições tão dilacerantes, se tudo toma uma coloração e, de imediato, uma outra tão oposta, se tudo, nesse pensar e sentir, se move e transforma, para logo retornar ao que era e, mais uma vez, se negar, como poderá a minha palavra apresentar a estabilidade que a tornaria digna de crédito? Tivesse Deus ou a natureza dado ao meu sentir e pensar a imutabilidade, seria ainda possível que as minhas palavras fossem verazes. Assim, criado para a inconstância e a volubilidade, toda a verdade que digo é, mal proclamada, a mais acintosa das mentiras, e em cada mentira oculto a luz da pura verdade. Já era tempo de sabermos que a verdade e a mentira são assuntos que pertencem aos deuses. Que cruel destino o de ter de suportar as querelas divinas.