quinta-feira, 12 de julho de 2012

Apontamentos para uma arte poética

Rafael - La poesía (1508-11)

[Recuperação, a propósito de um post anterior, de três textos do meu antigo blogue averomundo, retirado de circulação.]

O poeta Paul Celan afirmou que o poema é uma forma de “manifestação da linguagem” e, por isso, é na sua “essência dialógico”, dirige-se a alguém. Como se sabe, o fazer poético, esse produzir de um texto que se dirige a alguém, estrutura-se pela suspensão da semântica vulgar, pela abertura de novos espaços de sentido. Isto faz-se a partir de duas estratégias. A primeira, mais corrente, é a utilização das chamadas figuras de estilo, nomeadamente da metáfora. A linguagem renova-se, ao ampliar o conteúdo dos significantes, e dá a ver o mundo de uma forma que, devido ao desgaste, o uso vulgar da linguagem é já incapaz. A segunda, menos usual, implica uma certa desgramaticalização da frase poética. Esta desgramaticalização é uma suspensão da sintaxe corrente, ou uma reconstrução da sintaxe em novos moldes. Sublinharia, porém, que a poesia, enquanto forma de tecer textos e apesar da renovação que impõe da forma como habitamos e vemos o mundo, não deixa de reforçar essa forma de ver o mundo, naquilo que é a sua essência, a de compreender o mundo como um nexo de relações de causa e efeito. Estas são apresentadas de uma forma mais sedutora, devido ao efeito das figuras de estilo, e são, de certa forma, reforçadas, pelas novas formas de aproximação sintáctica, mas é ainda o nexo causal que é mostrado, pela poesia, como verdadeira essência do mundo.

Nós percebemos o mundo como uma cadeia de causas e efeitos, como um contínuo de ligações entre fenómenos, mas será que o mundo é efectivamente assim? A relação causal existirá efectivamente? Por exemplo, David Hume, embora não a negando, diz que nós não temos qualquer experiência da conexão causal entre fenómenos. Apenas nos habituámos a esperar que certa coisa aconteça quando uma outra acontece ou aconteceu. A ligação causal seria então o resultado de uma idiossincrasia psicológica da espécie humana. Mas o que tem a poesia a ver com tudo isto? Em primeiro lugar, poderemos pensar que aquilo a que David Hume chama um hábito se relacione com a estrutura sintáctica das nossas línguas. A sintaxe ordena os elementos dentro da frase. Esta ordem, porém, não é uma ordem que pertença ao mundo, mas à língua. Diferentes línguas ordenam os elementos no interior da frase de formas diversas. Essa ordenação linguística acaba por ser uma forma de compreender o mundo. Eu olho para o mundo a partir da sintaxe da língua que falo. Podemos perguntar, de forma mais radical, se a conexão causal que compreendo no mundo não será o efeito global da sintaxe que uso para descrever o mundo. Pode não haver ordem no mundo, ordem entre os fenómenos, mas a sintaxe impõe-na, cria-a. Em segundo lugar, podemos perceber que a poesia, apesar de suspender, por vezes, certos usos sintácticos correntes, não atinge o núcleo central da percepção causal dos fenómenos mundanos ou psicológicos. Ela não suspende a sintaxe, refunda-a, o que significará que ela refunda a forma de compreender a conexão causal que nos parece existir no mundo. A poesia, mesmo aquela onde a gramaticalidade usual é questionada, acaba por reforçar essa nossa percepção do mundo como uma evidente relação de causas e efeitos.

A poesia, mesmo quando suspende a gramaticalidade usual, reforça a nossa percepção do mundo como uma evidente relação de causas e efeitos. Mas se a nossa visão do mundo como uma cadeia de conexões causais tem a sua raiz num hábito psicológico, como defende David Hume, não deveria a poesia visar um "para além" do hábito? A consumação da essência da poesia não seria permitir que a linguagem dissesse esse outro mundo que se oculta no hábito, hábito que nos obriga a associar os fenómenos em infinitas cadeias de causas e efeitos? Mas que mundo seria esse onde não existisse uma ligação entre os fenómenos? Esse mundo não é perceptível por nós, pois contraria a formatação psicológica com que apreendemos a realidade envolvente e mesmo a nossa realidade subjectiva. Se conseguirmos imaginar uma utilização poética da linguagem para além daquela que fazemos, poderemos pensar então numa poesia não-causal. Mas esta poesia teria de re-inventar a sintaxe, descativando-a das conexões causais. Esse seria um primeiro passo, para logo de seguida instituir novas formas de conexão não causais. Ou, no limite, marcar uma nova forma de discurso no qual estivesse ausente toda e qualquer conexão, para além da continuidade temporal e da contiguidade no espaço.