domingo, 15 de julho de 2012

A falsificação liberal

El Greco - La expulsión de los mercaderes del templo (1600)

Acedi a este artigo do Guardian graças ao Zé Ricardo (Ponteiros Parados). A tese que me interesse diz respeito ao papel actual da educação no combate (sic) à mobilidade social. A realidade americana e inglesa mostram o declínio dessa mobilidade e o endurecimento das divisões sociais. O título do artigo, na ironia negra que dele emana, é esclarecedor: Born poor? Bad luck, you have won last prize in the lottery of life. Vale a pena ler o artigo. Duas notas sobre o assunto. Uma específica e outra geral.

A destruição sistemática da escola pública em Portugal, as nefandas reformas que sobre ela recaem a cada momento, as invenções ministeriais, a cada vez mais drástica redução da liberdade dos professores, as extraordinárias medidas do actual governo, disfarçadas de compromisso com a troika, só têm um fim: evitar a concorrência entre os alunos do ensino público e os do ensino privado. Não estou a afirmar que há uma conspiração. No entanto, as políticas seguidas têm sido consistentes de forma a evitar que os filhos das classes pobres concorram para os lugares das melhores universidades portuguesas e ocupem os lugares que as elites sociais julgam ter direito por nascimento. Mesmo para um não marxista como eu, é claro que que tem havido em Portugal, da parte dos partidos do arco governativo (CDS, PSD e PS) uma política educativa classista, muitas vezes com o apoio explícito de partidos como o PCP e o BE (quando, por exemplo, se pronunciam contra os exames e a favor da avaliação contínua). Esta é a nota específica.

A segunda nota, a geral, diz respeito ao comportamento das elites económicas e à falácia da concorrência e à pureza social do mercado. O que se assiste, e que o artigo do Guardian torna claro, é a um refinamento das estratégias de diferenciação e de bloqueamento da concorrência entre pessoas de estratos sociais diferentes. Utilizando a colaboração das elites políticas, as elites sociais constroem um mundo onde se protegem e protegem os seus. A pureza da concorrência - a vitória do mais eficiente e eficaz - é pura retórica e aplica-se, quando se aplica, apenas ao campo económicos (e mesmo aí para que as grandes companhias destruam ou devorem as pequenas, promovam a concentração e evitem, na prática, a concorrência). É evidente que a lotaria do nascimento tem importância, mas ela só se torna absolutamente decisiva quando, de forma mais evidente ou mais subreptícia, a acção política tem como finalidade ajudar os mais fortes a proteger-se da concorrência social, que é aquilo que acontece neste momento no mundo ocidental e, de forma absolutamente despudorada, em Portugal. Os liberais gostam muita da concorrência desde que os filhos dos pobres e dos remediados, enquanto os houver, não possam concorrer com os seus filhos. Um regime liberal não começa no mercado, mas nas oportunidades que são dadas a todos para poderem concorrer. A educação não é obrigatoriamente um lugar de emancipação. A direita percebeu-o muito bem e utiliza-a como estratégia de destruição da concorrência. Vivemos numa falsificação liberal.