segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ambiguidade revolucionária

Eugene Delacroix - Liberdade guiando o povo (1830)

Uma leitura intempestiva de um obscuro autor do século XIX, Monsenhor Jean-Joseph Gaume, veio tornar claro algo que sabia mas que não tinha valorizado. Trata-se do papel central, ao nível da produção ideológica, da influência clássica greco-latina na Revolução francesa. A tese do autor é que este acontecimento se inscreveu numa longa cadeia de eventos que visaram restaurar o paganismo em detrimento do cristianismo. Não é a questão religiosa, porém, que me interessa aqui. Por norma, as leituras que se fazem da Revolução francesa são tendencialmente progressivas, mostrando como ela abre o caminho para o futuro. No entanto, os discursos, as proclamações, as meras injunções, os modelos em conflito, a própria lei, tudo isso traz em si uma marca clássica. Os jacobinos, por exemplo, com Robespierre à cabeça, sonhavam com uma nova Roma, agora centrada em Paris.

Qual a importância de tudo isto? A importância reside na ideia de revolução. Mais de dois séculos de propaganda revolucionária, onde revolução e progresso eram assimilados, acabaram por ocultar aquilo que uma revolução significa. A palavra revolução provém da astronomia, onde significa o movimento de translação de um astro em torno de outro (por exemplo, da Terra em torno do Sol). Sendo assim, revolução não significa progresso, mas um eterno retorno ao mesmo ponto. Ao ser transportada metaforicamente para o campo da política, a palavra revolução parece ter perdido esta natureza conservadora. Primeiro, marca a ideia de desordem, depois de transformação da ordem política através da substituição de uma ordem velha por uma nova. 

Se se der atenção ao discurso revolucionário da Revolução francesa, contudo, a nova ordem é, apenas, a restauração de uma antiga ordem que a própria história tinha abolido. O discurso revolucionário era extrordinariamente clássico. Os heróis modelares eram gregos e latinos. De certa maneira, aqueles homens sonhavam com a restauração da eloquência das oratórias greco-latinas, bem como do retorno da antiga pólis grega ou da república romana. A tese da restauração, e assim do elemento conservador no centro da revolução, faz sentido se olharmos a Revolução francesa como a revolta do elemento galo-romano da população contra uma aristocracia de ascendência germânica. E daí toda a retórica em torno da liberdade dos antigos, como a reconquista de uma idade de ouro que a queda do Império romano teria lançado na perdição ao sucumbir perante as tribos germânicas. Isto ensina-nos pelo menos uma coisa. As revoluções políticas mais do que motivadas pelo futuro e pelo progresso são tentativas de restauração, sempre falhada, de um mundo que a história, ao destruir, mitificava.