sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Campanhas de terror

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

“O liberalismo económico propunha-se resolver o problema dos trabalhadores pelo habitual processo implacável de os forçar a trabalhar com salários de miséria ou a emigrar.”
Eric Hobsbawm, A Era das Revoluções

A citação de Hobsbawm, em epígrafe, refere-se à Inglaterra da década de trinta do século XIX e não a Portugal do século XXI. No entanto, não há qualquer diferença. No essencial, o liberalismo é uma doutrina estática, que adopta, com poucas variações no tempo e no espaço, as mesmas receitas. A aplicação destes receitas é antecedida por campanhas de puro terror. Primeiramente, através da violência física e da perseguição das pessoas, depois, quando a violência física se tornou mal vista, através da coacção psicológica e moral.

É no âmbito deste exercício de terror sobre as populações que deve ser entendido o famigerado documento que o governo português encomendou a um conjunto de técnicos do FMI. A sua função é lançar um sentimento de medo na sociedade portuguesa, em especial na função pública, para criar as condições para que as pessoas aceitem rescisões de contratos que o Estado não quer honrar e a degradação dos serviços públicos de saúde, educação e protecção social.

Muitos comentadores acham o documentam inexequível e feito por técnicos que não conhecem a história do país, que não percebem que Portugal foi um Estado antes de ser uma nação, que esse mesmo Estado, no último quartel do século XX cresceu para responder a problemas reais da sociedade e com vista a evitar uma perigosa ruptura social. Tudo isso é verdade, mas… O problema é que o liberalismo é uma doutrina racional abstracta, que não toma em consideração a história das sociedades e as suas tradições. Para o liberalismo, o fundamental é a destruição das tradições e dos mecanismos de solidariedade que a história dos povos foi institucionalizando. História, tradições, solidariedades, tudo isso deve ser destruído em nome da eficiência económica, da mercardorização dos bens sociais e da competição no mercado.

Quando as doutrinas liberais se apoderam, sem contrapesos, de um Estado, como acontece neste momento em Portugal, a única coisa que se poderá esperar são salários miseráveis para a generalidade da população, direitos sociais mínimos e, como salienta Hobsbawm, a emigração, essa forma pouco subtil de matar tradições e destruir solidariedades. Para se alcançar esse fim, não se olha a meios. Se preciso for, deita-se mão ao medo, transformando muitos actos e discursos políticos em puras campanhas de terror contra a população.