sábado, 19 de janeiro de 2013

Sándor Márai, A Ilha


A pergunta sobre a identidade de si mesmo é um topos recorrente da literatura ocidental. Um romance é o dispositivo tecnológico que se inventou para se observar o homem em busca daquilo que é, em busca da sua identidade. Não se trata, claro, de especular sobre o self, mas de o ver em acção, de observar a gesta que conduz ao reconhecimento. Raramente, porém, reconhecimento e reconciliação vão a par. É o que se passa também em A Ilha, um romance do escritor húngaro Sándor Márai publicado em 1934 e traduzido em 2012 para português.

Viktor Henrik Askenasi é um professor do Instituto de Estudos Orientais de Paris que levava uma existência burguesa com um casamento convencional. Esta vida pautada pelo reconhecimento dos pares, no entanto, não era suficiente para o apaziguar. Desde sempre que uma dissonância existencial lhe corroía a alma e semeava uma certa intranquilidade espiritual. Procurava qualquer coisa que o casamento não lhe dava. Para escândalo da boa sociedade a que pertencia, trocou a mulher por uma bailarina russa. Uma mudança radical. Askenasi, porém, rapidamente percebeu que não alterava em nada a sua situação interior. A dissonância não desaparecia na vida pouco convencional que agora levava.

É este o ponto de partida da narrativa. Nem a mulher nem a bailarina eram a solução para o problema que o atormentava. Aconselhado pelos amigos, que o criticavam e, ao mesmo tempo, o invejavam pela despudorada aventura com a bailarina russa, Askenasi empreende uma viagem pelo Mediterrâneo. Pára em Ragusa (actual Dubrovnik) e instala-se no equívoco hotel Argentina. Uma onda de calor transtornava os hóspedes e propiciava “uma atmosfera de sensualidade quase palpável e impúdica”. É neste ambiente que uma hóspede diz a palavra chave que desencadeia os acontecimentos, que levarão à revelação que Askenasi procurara toda a vida. Zwoundvierzig (quarenta e dois) na pronúncia berlinense (e não zweiundvierzig). Ela pede, desse modo, a chave do seu quarto, mas é também um convite que, tomado por uma certa vertigem, o professor Askenasi decide aceitar.

Que o resultado da sua autodescoberta gere a revolta contra Deus percebe-se, pois aquilo que ele descobre de si está longe de ser interessante e de corresponder aos anseios que o levavam à sua busca. Se a bailarina russa lhe indicou um caminho, se lhe permitiu a ruptura com a convenção e o mundo burguês das aparências, a hóspede do quarto quarenta e dois foi a alavanca que possibilitou erguer o véu e descobrir a verdade tenebrosa que residia em si. No fim do livro, tomado pelo desvario, Askenasi pergunta-se “o que é o erotismo?” E responde: “Poucas vezes o encontrei… Uma vez estava sentado no hall  de um hotel, depois do almoço. Uma mulher jovem  levantou-se da cadeira ao lado e dirigiu-se ao elevador, fazendo sinal ao marido para que a seguisse. Entraram juntos no elevador, e eu só vi uma mão e o braço dela ao fechar-se a porta devagar antes de começarem a subir. Acho que é o único gesto erótico que recordo.” Depois, acrescenta: “Nem mais tarde, nada do que experimentei na cama. Excepto hoje à tarde, talvez, quando a agarrei pelo pescoço… Sabes, ela não entendia o que eu queria.”

No lugar de um reconhecimento reconciliador, Askenasi descobre-se na obscuridade que o habita, descobre-se num eros que o conduzirá à perdição. O que cabe interrogar, com a leitura de A Ilha, é a relação entre eros e o espírito. Como poderá a experiência erótica ser integrada na descoberta espiritual do homem? Como poderá este evitar que o erotismo o conduza à degradação e seja motivo de corrupção de si mesmo? Contrariamente ao que, hoje em dia, se tornou opinião corrente, a sexualidade está longe, talvez muito longe, de ser um lugar de comunhão entre dois seres humanos. Talvez em casos excepcionais isso possa acontecer. Na generalidade, não passará de um lugar de prazer, se o houver, em que dois se acompanham, se vigiam e saciam as exigências que o corpo lhes impõe. Noutros casos, porém, como o de Viktor Henrik Askenasi ela é o sintoma do seu isolamento, a prova de que ele é uma ilha ou, para utilizar o velho conceito de Leibniz, uma mónada incomunicável, encerrada na escuridão de uma moradia onde não há janelas.

Sándor Márai (2012). A Ilha. Alfragide: D. Quixote. Tradução de Piroska Felkai.