quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Pauline Réage, História d'O




Em 1954, Anne Desclos, sob o pseudónimo de Pauline Réage publicou História d’O. A revelação da verdadeira autoria demorou quarenta anos. Segundo a autora, a escrita do romance foi uma resposta a Jean Paulhan, com quem mantinha um caso. Este era um admirador de Marquês de Sade e ela, perante o desafio e o espanto de Paulhan, escreveu um romance sadiano em forma de uma série de cartas de amor. Há três coisas que são absolutamente inúteis para a leitura do texto de Anne Desclos. A primeira é a classificação segundo o género literário. Por norma, classifica-se História d’O como literatura erótica. Ora a literatura é literatura e nada mais do que isso. A segunda é o culto que a subcultura BDSM (Bondage/Discipline, Sadism/Masochism) presta ao livro. A terceira é a crítica feroz que a obra recebeu dos movimentos feministas.

Uma abordagem possível do livro seria confrontá-lo com uma das mais importantes obras de filosofia política. Uma obra escrita em 1548 (quatro séculos antes) e que analisa o mecanismo de submissão ao tirano. O Discurso da Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie, sustenta que aquilo que mantém um político (e um político, seja qual for a forma como ascendeu ao poder, é sempre um tirano) no poder nunca é a boa governação, nem sequer é o medo da violência, mas o hábito de servidão, estruturado pela religião e pela superstição, existente no povo. Este grau de obediência é superficial e diz respeito aos ignorantes. O segredo de toda a dominação reside, contudo, em fazer participar voluntariamente os dominados na sua dominação. É o que acontece com aqueles que envolvem (a corte) o tirano. Estes têm o dever não apenas de obedecer como de antecipar os desejos do tirano (para uma visão geral aqui; a obra em francês aqui; a obra em inglês aqui).

O que a História d’O faz é explorar o desejo de submissão e tornar evidente a natureza sexual desse desejo de servidão voluntária. Note-se que não há na obra a mais leve referência à política ou a uma meditação sobre esse fenómeno. Esta ausência completa do fenómeno político é absolutamente suspeita. O é uma fotógrafa parisiense que é levada, com o seu consentimento, para um palácio em Roissy, onde é sujeita a uma dura aprendizagem da submissão e da disponibilidade. Submissão e disponibilidade para um conjunto de homens, aparentemente pertencentes a elite social, mas também aos criados. A educação passa por vários estágios onde é amarrada, amordaçada, chicoteada, mas também onde está disponível, para qualquer um, solitário ou em grupo, praticar com ela (seria mais exacto dizer praticar nela) sexo vaginal, oral, anal.

Está-se perante uma verdadeira ascese, decalcada, de certa forma, das asceses monásticas que visavam a mais perfeita obediência do monge ao seu superior. A vertente religiosa do texto não deve ser posta de lado. O que O procura é o total abandono de si e a entrega a um senhor. Quando vai para Roissy é o desejo de se submeter a René, o seu amante. Mas quando sai de Roissy (onde, digamos assim, foi iniciada nos pequenos mistérios), René dá-a, literalmente, a Sir Stephen, um senhor mais dominador e exigente na submissão. Esta dominação e esta exigência é sempre reforçada pela anuência de O. O clímax da submissão é o momento em que, em casa de Anne-Marie, é treinada para ser marcada a ferro quente, como os animais, e receber, nos lábios vaginais, uma espécie de piercing onde consta as iniciais de Sir Stephen. Ela agora é pura coisa, puro objecto (iniciação aos grandes mistérios).

Leituras que sublinhem o masoquismo da personagem ou a sua transformação em puro objecto de satisfação do desejo masculino, tal como nós os entendemos, são possíveis, mas julgo que pouco pertinentes. Não é o prazer de sofrer que move O, nem o desejo de promover o prazer dos homens. É algo mais fundo e fundamental. A vontade tem o projecto de se autodestruir. Tornar-se coisa ou objecto é renunciar a ser pessoa, é renunciar a ser agente, é entregar-se à pura passividade. Mas há mais do que isso, há algo mais escandaloso do que isso. Para o compreendermos teremos de recuar às concepções tradicionais que o Iluminismo obliterou.

Na generalidade das tradições religiosas e sociais, a essência do homem é vista como sendo activa e a mulher como passiva. O escândalo do texto de Anne Desclos (Pauline Réage) está na reivindicação desse estatuto tradicional para  mulher. A pura passividade perante o homem. Que essa reivindicação seja feita por uma ascese particularmente violenta abre para uma discussão entre duas possíveis interpretações. A primeira interpretação (uma interpretação progressista) dir-nos-ia que a passividade da mulher tradicional seria um exercício de uma longa violência consentida. Mas a segunda interpretação (uma interpretação tradicionalista) permite pensar num outro sentido. As sociedades modernas são incapazes de perceber a essência passiva das mulheres e só o exagero da violência consentida e da dominação requerida permite acordar os modernos para a verdadeira natureza da mulher (não admira que as feministas se sentissem indignadas).

Podemos voltar à servidão voluntária de La Boétie. O poder político é possível porque há nos seres humanos uma passividade fundamental que não apenas permite a existência do poder como o requer. Essa passividade reside na renúncia da vontade a si própria, reside na vontade da não vontade, para que um princípio activo, uma potência, possa fecundar a terra e a vida brotar daquilo que, por vontade própria, se aniquilou. É por isso que a ideia de que o soberano é o povo é sentida, apesar de toda a retórica em contrário, como uma incongruência. O que a História d’O sublinha, por outro lado, é que a natureza da sexualidade dos seres racionais implica uma potência activa e uma passividade fundamental. No campo do amor, não há lugar para o Iluminismo nem para a complacência. É preciso que haja poder e a servidão voluntária da mulher é ainda um estratagema da natureza para que esse poder se manifeste e a vida triunfe. Mas isto é um discurso que nós, os modernos, já não entendemos. 

Pauline Réage (2012). História d'O. Alfragide: Edições Asa. Tradução de de Luísa Saraiva.