quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A degradação da razão

Para lá da tragédia que afecta seis famílias, há uma realidade, a da cultura das praxes académicas, que me deixa, como cidadão e como antigo estudante universitário, profundamente perturbado. Não consigo compreender como alguém aceita o tipo de relação que a praxe introduz. Lembro-me de há uns anos ver, perto de minha casa, um grupo de jovens futuros professores do primeiro ciclo, trajados de capa e batina, a rebolarem pelo chão e ganir como cães ou zurrar que nem burros sob as ordens de um pequeno e esganiçado dux de província. Este espectáculo degradante é o contrário daquilo que eu, como cidadão, desejo para o meu país. Agora, ao acompanhar as notícias da tragédia da praia do Meco, confronto-me com a linguagem e os rituais que compõem a cultura da praxe e sinto um vivo horror, tanto por haver gente que quer ser e é dux, como por haver tanta gente nova disposta a submeter-se a um dux e a entregar-se a um conjunto de rituais absurdos. Não deixa de ser sintomático que as nossas universidades - que deveriam ser a casa da razão - se tenham tornado o palco desta irracionalidade inominável, o viveiro de onde, mais tarde ou mais cedo, acabará por brotar uma cultura política de duces e de gente submetida, disponível para ganir ou para zurrar conforme o arbítrio do mandador.