quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O mito da instrução

Rembrandt - Dois sábios à conversa

Um dos mitos persistentes do imaginário social - fundamentalmente, do imaginário de pessoas de esquerda - está centrado na correlação entre a instrução e uma maior consciência social e política, nomeadamente, uma maior preocupação com o que é socialmente justo. As reacções à infeliz proposta de redução da escolaridade obrigatória de doze para nove anos, das Juventudes Populares, estavam fundadas nesse mito. A direita pretenderá diminuir a escolaridade obrigatória para evitar que as pessoas tenham capacidade crítica e, a partir dela, escolham o governo certo, isto é, de esquerda.

A persistência deste mito terá as suas razões. Talvez tenha tido a sua origem na República, onde se reconhecia que o campesinato analfabeto era favorável à monarquia. Também é verdade que o salazarismo funcionou desse modo. É ainda verdade que, nas boas famílias, não era olhado com bons olhos que uma criada soubesse ler. Isto que se passou em Portugal passou-se por outros lados. Há, por isso, uma certa verdade a alimentar o mito. O problema é que a sociedade mudou, arrastando consigo os mitos e as narrativas que nos dispensam de pensar. Qual é o problema deste mito? É que ele é, actualmente, falso. Um estudo da Universidade Católica mostra que quanto mais instruídas as pessoas são, menos importância dão à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos. A democratização do ensino é desfavorável à visão moral do mundo inerente à esquerda e privilegia uma certa visão de direita, a visão liberal, devido, como mostra o estudo, ao reforço das tendências egoístas dos sujeitos.

Isto não é, da minha parte, um argumento contra a democratização do ensino. É preciso que continue o esforço dessa democratização, elevando a qualidade das formações, tornando os portugueses mais diferenciados e capazes de lidar com uma realidade adversa. Este argumento é contra o próprio mito e a sua utilização. A esquerda gosta muito de se enganar e encontrar explicações que, se não são absurdas, são completamente deslocadas no tempo e no contexto. Eu percebo o drama da consciência de esquerda. Aquilo que foi um dos seus maiores e mais nobres combates, a democratização do ensino, gera uma população com valores adversos a essa esquerda. Mas a persistência nas fórmulas míticas acaba por não deixar perceber que a realidade mudou. A mudança social, aquela que seria o caminho para a justiça e uma democracia avançada, não virá da educação. Virá outra, mas essa será mais problemática e exigirá outra forma de pensar e de agir politicamente.