quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Vittorio de Sica - Os Sequestrados de Altona


A obra de Vittorio de Sica, de 1962, é uma adaptação da peça homónima de Jean-Paul Sartre, estreada em 1959. O filme move-se no território sombrio e pantanoso da relação dos alemães - da grande indústria alemã - com o nazismo e, depois, com o regime democrático e os aliados, seus ex-inimigos. Há uma intuição central que torna o filme bastante actual, o domínio alemão. Esta intuição da peça de Sartre, apesar de ocorrer ainda nos anos cinquenta, não é original. Em cima da própria derrota alemã, em 1945, o filósofo francês, de origem russa, Alexandre Kojève sublinhava já, em memorando ao General De Gaulle, a necessidade de uma aliança dos países latinos para contrabalançar o poderio técnico e económico da Alemanha. 

A trama gira em torno da família Gerlach, ligada à construção naval. Ao patriarca da família e gestor dos negócios é-lhe diagnosticado um cancro e uma esperança de vida de seis meses. O problema que se lhe põe não é o da sua morte, mas o da sua sucessão nas estaleiros navais da família. Franz fora a grande esperança do pai, mas tornara-se numa sombra fantasmática. Teria fugido para a Argentina, na sequência de prováveis crimes de guerra, onde fora dado oficialmente como morto. Na verdade, vivia há muito fechado no sótão da mansão dos Gerlach, onde só recebia a incestuosa visita da irmã, Leni. Restava Werner, o outro filho, mais interessado no teatro e numa actriz, Johanna, que representa a consciência moral anti-nazi e, não por acaso, lateral à família Gerlach.

Algumas traduções do título do filme, como a inglesa ou a brasileira, trocam "sequestrados" por "condenado", numa clara tentativa de ler o isolamento de Franz no sótão como uma condenação. A questão que o filme coloca é, porém, muito diferente. Não se trata de uma condenação mas de clausura, de fechamento. Toda a família Gerlach - antes de todos o pai e Franz - está sequestrada por lógicas  e princípios morais diversos, os quais lhes reforçam o núcleo central das suas convicções, aliás bem diferenciadas.

Em Gerlach pai o facto decisivo é o negócio, a prosperidade da empresa. Para que ela prospere, aliar-se-á com o próprio diabo. Serviu Hitler, denunciou um jovem rabino judeu, e, no presente, serve os aliados que derrotaram Hitler. Não há nele outra moral que não a da preservação da empresa. Os regimes passam mas os negócios da família devem continuar. Para a grande burguesia alemã não há estados-de-alma ou considerações de carácter ideológico. Gerlach está sequestrado pela sua própria concepção do mundo, fechado nela e, por isso mesmo, incapaz de compreender o mundo moral dos filhos.

Franz Gerlach, cuja culpabilidade nos crimes nazis nunca é esclarecida, está também sequestrado. Mas o seu sequestro não é tanto o do sótão onde vive fechado há muitos anos, mas o da própria narrativa que ele, ajudado pela irmã, constrói sobre a contínua decadência de uma Alemanha derrotada, em ruínas, sem futuro ou esperança. Ele escreve a crónica do século XX alemão que será lida no século XXX, uma crónica delirante e completamente desligada da realidade. Franz Gerlach está sequestrado na sua visão moral do mundo e no delírio que construiu.

A certa altura é dito: Graças à derrota a Alemanha tornou-se a maior potência da Europa. Uma derrota providencial. O mecanismo interno deste triunfo revela-se nestas duas personagens. O pragmatismo germânico está construído sob um processo de recalcamento e de delírio. A racionalidade de Gerlach pai - essa velha racionalidade da burguesia germânica - tem no seu cerne a loucura e o delírio de Gerlach filho, como se o fundamento da razão - da razão prática e utilitária - fosse a desrazão. É a síntese da razão calculadora e da desrazão delirante que faz da Alemanha uma potência desmedida e trágica. Melhor, uma potência cuja falta de medida a conduz à tragédia, como está patente no destino do pai e de Franz.