quinta-feira, 14 de abril de 2016

Livro do Êxodo 3. Na ardência da tarde

Jan van Goyen - Landscape with Two Oaks (1641)

Tudo arde na brancura da tarde, uma chama acampa pelas terras áridas. As palavras crescem roídas de saliva, os dias a fazem aumentar, e a teus pés os rebanhos metálicos deitam-se vorazes, estradas cospem-nos terra fora. Os deuses procuram os bosques sombrios, onde as tardes cantam matinas e o fogo é agora um astro de sidra no solo da memória. Esfarelado, coberto de erva rala, pequenas poças de água tépida, restos de ramos e pássaros de olhos vesgos. Os cães latem, coçados na sarna, a zumbir entre canaviais e as desventuradas ruas da cidade.

Na ardência dos dias, os homens das coisas se apossam, correm funâmbulos, e na precipitação a tudo abandonam e à sua imagem de vidro erguem, em temor e súplica, as mãos. Na sombra ansiosa, espreitam entre relógios, horas e dias, um caminho ainda haverá, dizem, ruas de algas roxas pelos bordos, uma estrada de ruídos, insectos de cinza, plantas melíferas pelos matagais de fogo, e uma ardência, a tudo, no inquieto coração, se apega.

Eu não tenho uma mão forte, nem do ramo da oliveira construo bordão a que, no clamor da tarde, me encoste. Sigo preso no horizonte e, onde me levam aqueles que me levam, eu vou. Sem o caminho saber, eu vou, na ardência que me leva, eu vou, apenas porque alguém me leva, como se fugisse das lâmpadas da noite e dos vagos faróis com que, em estradas de colmo, automóveis tracejam, ímpios, a santidade da noite. Levantam-se então os amantes, vejo-os, os corpos despidos de carne. Gritam. Gritam pelo fogo que, um dia, tão ao de leve, teria ardido como restolho na fulguração da campina infectada.