quarta-feira, 20 de abril de 2016

Livro do Êxodo 4. Ladrões de palavras

Anónimo japonês - Portrait of the poet Shinratei Manzo (1829)

Ao longe as sirenes ecoam na água da tarde, e um ruído de carvão atiça-se na estrada onde o viandante poisa, por instantes tão breves, um pé, logo de seguida o levanta, enquanto o outro, se outro ainda tem, desce em direcção à poeira branca e suja da terra. Assim caminham aqueles que caminham, talvez um santuário no fim da estrada exista, e dessa caminhada seja, quando a voz se afundar no peito, ponto final, denso e cerrado e agreste.

Os que caminham são ladrões de palavras. Roubam, na inércia do caminhar, os túmulos onde elas adormeceram, tão mortas, esquecidas de tanto hábito, gastas pelo vilipêndio dos dias, como se já não houvesse, no som que as animava, um segredo de flores pelo chão ou vacilantes cascatas ao cair da tarde, onde as aves do deus bebam a água derradeira antes de entoarem, pela tarde de cinza, o mais belo dos cantos, diz quem o escutou.

Talvez a vindimadora ainda não venha, a frágil foice em riste, cerzir com pétalas animais e terra metálica a fissura que da vida a morte desliga. Os ladrões, ao afastarem-se para ela vão, caminham na noite por estradas de palavras, sílabas desfeitas na oclusão do palato, na cercadura sempre fechada dos lábios. Avançam pregados à sombra e reviram os olhos se os ilumina o clarão de algum pássaro, ou da lonjura da estrada um carro, na pressa motorizada que ronca, os entontece de luz, encandeia e logo desaparece, sem que um destino para aquela chama o que caminha descubra, quando na noite ouve as sirenes e se afasta, cheio de palavras roubadas, dos túmulos de pedra e cal. Os deuses para elas os construíram nas manhãs intérminas, enlouquecidos, pois a vindimadora jamais a foice lhes estende.