sábado, 5 de março de 2016

Aprendizagens

William Turner - Norham Castle, amanecer (1835-40)

Qual a coisa mais importante que aprendi durante mais de quarenta anos de atenta observação da vida política? O mais importante foi a inexistência de alvoradas políticas. Em tempos, uma intensa metafórica ligada à aurora, à alvorada ou ao amanhecer de um novo dia seduziu muitas consciências. Também a minha. A verdade, porém, é que essas metáforas são construídas sobre uma ilusão relativa à natureza humana. São projectadas como uma promessa de um homem novo. Sempre que se fizeram experiências para produzir o homem novo o que resultou foi, invariavelmente, o mesmo velho macaco. A aprendizagem de que nenhuma manhã, por pletórica que seja, produzirá um homem novo - aprendizagem que fiz há décadas, mas que reputo como a mais importante - é um regresso ao velho cepticismo judaico-cristão. Neste, o homem é um ser decaído, expulso do paraíso, para o qual não pode voltar a não ser noutra vida. Ter levado este cepticismo a sério - ter sabido interpretar o mito e não o ter desconstruído como se ele fosse uma narrativa histórica - ter-nos-ia poupado muitas desilusões e outras tantas desgraças. Em resumo, o que de mais importante aprendi ao observar a vida política foi que não devemos menosprezar os nossos mitos fundadores. São mais eficazes que as teorias que a nossa razão cria.

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