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| Ellsworth Kelly, Shadows Under a Balcony, 1950 |
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
Descrições fenomenológicas 61. O mosteiro
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
Ernst Jünger, Sobre as Falésias de Mármore
Publicado em 1939, Sobre as Falésias de Mármore é o
romance mais conhecido de Ernst Jünger. A sua natureza enigmática e
marcadamente simbólica permite ver nele uma alegoria sobre a emergência dos totalitarismos.
Há quem o veja como uma denúncia do nazismo em clara ascensão e já no poder há
vários anos – apesar do romance nunca ter sido proibido pelo regime nazi e ser
bastante lido por agentes desse regime – e há quem o veja como uma referência ao
estalinismo. O autor nunca foi muito claro, dizendo apenas que existiriam
vários referentes possíveis para a figura do Couteiro-Mor. No entanto, e apesar
dos acontecimentos da Noite de Cristal terem sido um motivo
desencadeador da obra, talvez seja mais indicado ler o romance como o resultado
de um cruzamento entre as experiências existenciais do autor e as suas
obsessões espirituais, em vez de o entender apenas como uma desconstrução dos
regimes totalitários que nasceram na primeira metade do século XX.
Tanto o espaço como o tempo do romance são simbólicos. A obra não se enraíza nem na Geografia política nem na História dos homens, mas num espaço imaginário e num tempo que parece resultar de uma síntese de várias épocas históricas. Não seria descabido ver, na atopia e na acronia, a criação de um laboratório onde são feitas experiências de pensamento sobre a natureza dos homens e das sociedades, da sua degradação e da ascensão do terror. A personagem central e o seu irmão Otão vivem ambos num ermitério. Ex-combatentes de uma guerra anterior ao tempo da narrativa, a guerra de Alta Plana, dedicam-se agora à botânica. Estudam a flora da região onde habitam, contemplando-a, registando-a, entregando-se assim a uma vida de contemplação e de estudo. Estas figuras combinam, na atitude e modos de vida, os arquétipos medievais do aristocrata guerreira e do monge contemplativo. Foram homens de acção e são, agora, contemplativos. É esta dupla natureza que lhes permite ver a emergência do mal no país aprazível onde se acolheram para se dedicarem aos seus estudos.
Para além de Alta Plana, situada no outro lado do mar, o espaço geopolítico é composto pela Marina, onde vivem os irmãos, terra de grandes vinhas e de civilização refinada, a Campana, zona de pastores, mais rude, e a Mauritânia, uma potência obscura e poderosa, fomentadora da guerra e da desordem. O que a Mauritânia, na verdade, ameaça é a civilização e o requinte, a vida pacífica fundada na convivência entre os homens, no respeito que entretêm pela diversidade. O que preocupa o autor é a fragilidade da civilização perante a subida ao poder da barbárie. Os mauritanos representam claramente esse mundo bárbaro em ascensão na primeira metade do século XX, as forças mais negras e odiosas que habitam o homem. Sobre as Falésias de Mármore fala da impotência da civilização perante a força despótica de homens despidos de qualquer piedade, para os quais apenas a dominação violenta faz sentido.
O Couteiro-Mor, personagem enigmática que nunca é avistada no romance, é o chefe das hordas bárbaras. Não há descrições físicas dele, subsistindo apenas algumas referências ao carácter impiedoso e violento, embora não destituído de racionalidade instrumental e estratégica. O Couteiro-Mor é, pela sua ausência constante, uma verdadeira omnipresença. Este jogo narrativo de uma omnipresença ausente tem o condão de sublinhar não só o carácter enigmático do chefe bárbaro, mas também de o configurar como uma ameaça ao mesmo tempo bem real e imponderável. É construída como se tivesse atributos divinos – ou diabólicos – pois sendo invisível, é sentida em toda a parte a sua presença ameaçadora. Esta máscara feita de traços tão pouco humanos transforma o Couteiro-Mor num arquétipo, o arquétipo de uma nova forma de poder que ameaça a ordem racional do mundo. Não é que antes do século XX não tenham existido tiranos e déspotas, não é que a violência não fosse um elemento central na vida política, não é que a ameaça de invasão e destruição não tenha sido uma experiência viva do passado. No entanto, o Couteiro-Mor encarna um poder mais profundo, mais baixo e mais diabólica. Ele simboliza a emergência do poder das trevas na Terra.
Se se meditar no estilo narrativo adoptado por Jünger, na claridade da narrativa, na beleza cultivada, no equilíbrio e profundidade das descrições, mesmo na narração dos acontecimentos dramáticos e violentos que conduzem ao desfecho do romance, em tudo isso se encontrará um contraponto à irracionalidade desse poder ameaçador. Esse contraponto não é, no entanto, uma racionalidade ao modo do Iluminismo. É antes uma racionalidade como a que se manifestou na Filosofia grega ou nos grandes pensadores medievais, como se o texto romanesco fosse uma emanação de um logos humano que ainda não tinha usurpado para si o lugar do logos divino. Talvez esteja aqui uma chave para ler o romance. O combate à irracionalidade para ser vitorioso necessita de uma reordenação do logos, recolocando tanto o humano como o divino nos lugares que a Modernidade e o Iluminismo subverteram.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
Perfis 10. O pintor
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| Yousuf Karsh, Pablo Picasso, 1954 |
terça-feira, 15 de dezembro de 2020
Simulacros e simulações (6)
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| John Gutmann, "Yes, Culumbus did discover America”, San Francisco, 1938 |
segunda-feira, 14 de dezembro de 2020
A Garrafa Vazia 33
domingo, 13 de dezembro de 2020
Nocturnos 42
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| Walter Sanders, Hamburg Essay, 1951 |
sábado, 12 de dezembro de 2020
Sonhos numa noite de Verão 26
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| Norman Parkinson, Wedding outfits by Victor Stiebel, 1938 |
sexta-feira, 11 de dezembro de 2020
Beatitudes (34) A liberdade
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| Hiroshi Hamaya, Kayenta, Arizona, USA, 1967 |
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
Simulacros e simulações (5)
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| Ralph Gibson, The sketch, 1975 |
quarta-feira, 9 de dezembro de 2020
A Garrafa Vazia 32
terça-feira, 8 de dezembro de 2020
A recandidatura de Marcelo e a semidemocracia
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| Riccardo Schweizer, ¡Ay que trabajo me cuesta quererte como te quiero!, 1994 |
O leitor consegue imaginar uma eleição presidencial nos EUA
em que os Democratas ou os Republicanos – os grandes esteios do regime americano
– não apresentem um candidato sério para disputar as presidenciais? Não, não
consegue. É verdade que o regime norte-americano é presidencial e isso implica
uma grande luta pela presidência. Agora que Marcelo Rebelo de Sousa confirmou a
sua recandidatura é necessário olhar para uma das perversões que se instalou na
democracia portuguesa. O nosso regime é semipresidencial e também, na prática
referente à Presidência, semidemocrático.
O problema coloca-se na estratégia dos grandes partidos perante um Presidente de cor diferente e de popularidade segura. Desistem de apresentar candidato que possa tentar disputar a eleição ou, então, apresentam um candidato que tem muitas hipóteses de perder por grande diferença, para não incomodar o recandidato, como foi o caso de Ferreira Amaral contra Jorge Sampaio. A situação foi ainda pior nas recandidaturas de Mário Soares e de Cavaco Silva. Será também o caso da recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Os socialistas desistiram democracia e de procurarem uma alternativa séria ao actual incumbente.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
Nocturnos 41
domingo, 6 de dezembro de 2020
Frans Eemil Sillanpää, Santa Miséria
Ao autor finlandês foi atribuído o prémio Nobel da
Literatura em 1939, ano em que começou a segunda guerra mundial e também a
guerra entre a URSS e a Finlândia. O romance, Santa Miséria, foi
publicado em 1919, pouco tempo depois de ter terminado a guerra civil
finlandesa ocorrida em 1918. Esta, um reflexo da implosão da Rússia Czarista e
da subsequente tomada do poder pelos comunistas, opôs também ela, tal como a
guerra civil russa, brancos e vermelhos, conservadores e sociais democratas
revolucionários. É nela e na vitória, na Finlândia, dos Brancos que o protagonista
encontra a consumação do seu destino. A obra de Sillanpää possui quatro linhas estruturantes.
A fluidez da identidade, a configuração complexa das pessoas simples, o
paralelismo entre a história do indivíduo e a da comunidade e, por fim, a
história do indivíduo como cumprimento de um destino e a submissão à estrita
necessidade.
O romance começa com estas palavras: Jussi ou Juhá, ou Janne Toivolá – nome de baptismo, segundo o registo, João Abraão Benjaminpoika – era um pobre diabo de aspecto repugnante. A primeira tensão que atravessa o romance está determinada já. Um pobre diabo, ainda por cima de aspecto repugnante, recebe múltiplas identificações, para além daquelas que recebeu pelo baptismo. Essas identificações não ficam apenas pelo nome própria, o qual, ao longo da narrativa, vai variando entre Jussi, Juhá e Janne (não é clara para quem não conhece a língua se serão variações de um mesmo nome), mas atinge também o que poderíamos chamar o apelido. Não tendo nome de família – Benjaminpoika significa apenas filho de Benjamin, segundo o tradutor – os camponeses recebiam o nome da quinta que habitavam. Também o herói de Santa Miséria vai mudando de nome conforme se vai deslocando pelas várias quintas onde viveu, sendo sucessivamente Nikkila, Tuorila e Toivolá. Estas metamorfoses onomásticas são mais do que meros registos de ocorrências, mas indicações de que na fluidez da identidade se esconde uma maior complexidade do que na referência de pobre diabo de aspecto repugnante. Quando No final da terceira página, o narrador assegura isso mesmo quando, comentando o destino do protagonista dado a conhecer logo no início do romance, que Jussi Toivolá e o oficial são conhecimentos antigos… Outrora, num lugar qualquer deste mundo, aquele, por uma noite límpida e pura, matou Jussi. Fê-lo sem reparar, sem atentar no homem extraordinário que era, no fundo, Jussi.
Se se comparar esta personagem de Silanpää com personagens do romance neo-realista ou do realismo social, nota-se uma diferença acentuada na sua construção. Não se trata nem de uma idealização de um explorado nem um estereotipo de um revoltado. Pelo contrário, o pobre diabo tem uma psicologia complexa, com claros e escuros, que ultrapassa em muita a simplicidade que se costuma atribuir às personagens de origem popular. A pobreza e as dificuldades que teve de enfrentar, os desaires da vida e as partidas do destino não são meros motivos de alienação, mas de engrandecimento da sua personalidade, que se vai transformando durante toda a vida. Quase que se poderia dizer que Santa Miséria é um romance de formação ao longo da vida, pois Jussi Toivolá não deixa, continuamente, de se tornar em algo mais complexo do que era anteriormente. Sillanpää recebe o Nobel devido à profunda compreensão que a sua obras ostenta em relação aos camponeses da Finlândia. Este romance é um claro exemplo dessa justificação do Nobel.
A narrativa romanesca, dividida em seis capítulos, acompanha a vida da personagem desde o seu nascimento até à morte, cerca de sessenta anos depois. O autor, todavia, inscreve essa história individual num pano de fundo muito mais largo, o da história da Finlândia, desde as grandes fomes que a assolaram na época da infância de João Abraão até à guerra civil de 1918. Não se trata, porém, de um romance que se possa enquadrar no género denominado como romance histórico, mas do drama de um indivíduo que vive no seu tempo histórico e que está sujeito às contingências da história da comunidade, as quais surgem à sua consciência não como meras contingências mas, antes, como estrita necessidade da qual não pode escapar. Este enraizamento na história é mediado por um outro enraizamento, o do camponês, que Jussi foi desde o nascimento até à morte, na natureza. Ele não está apenas inserido no tempo, mas também no espaço, naquilo que este espaço tem de misterioso e de sedutor. A relação da vida do indivíduo, do herói da narrativa, com o tempo histórico é sempre compreendida na sua relação com o espaço onde vive e do qual vai recebendo sucessivas denominações, como se cada quinta fosse uma instância onde a natureza se deixa tocar pelas mãos do homem.
A estratégia narrativa transforma o romance numa enorme analepse. Nas primeiras três páginas, é narrada a morte do protagonista, a sua execução sob a ordem de um oficial branco. Esta opção narrativa tem um efeito que por vezes passa despercebido ao leitor. Se o desenlace só é conhecido no fim, cria-se a ilusão de que as personagens possuem livre-arbítrio e que o futuro, apesar das peripécias, estará aberto, até que o desfazer do nó tem o condão de o fechar. A transformação da narrativa numa analepse tem o efeito contrário. O leitor sabe que o destino de Jussi Toivolá está selado. Nada está em aberto. Aquilo que o leitor vai sabendo sobre a vida do herói é os passos que necessariamente o conduziram ao fim já conhecido. Todas as metamorfoses que a personagem sofre são necessárias e não está na mão dela querê-las ou evitá-las. O extraordinário homem que ele era, esse pobre diabo repugnante, deriva então da sua conformação à necessidade que a natureza – essa necessidade imposta pela natureza revela-se logo no início com as grandes fomes – e a história, como se vê no caso da guerra civil, lhe impõem.
sábado, 5 de dezembro de 2020
A importância de Joe Biden
A vitória de Joe Biden é um acontecimento que, em princípio,
terá importantes e benévolas consequências para nós portugueses e europeus.
Antes de explicar as razões para tal afirmação, convém sublinhar que os EUA não
deixarão de ser o que eram e que Biden não representa qualquer devaneio utópico
no interior da grande nação americana, como poderia ser o caso do democrata
Bernie Sanders. Aliás, Biden surge como o contrário da utopia, neste caso da
utopia da direita populista organizada em torno de Donald Trump.
A vitória de Biden é importante para os portugueses, em primeiro lugar, por causa da NATO. Toda a nossa defesa está assente na NATO e sem ela não é visível como Portugal se poderia defender de eventuais ameaças externas, que podem surgir a qualquer momento. O desprezo com que Trump tratou a NATO foi, para nós, um perigo. Com Biden, a cooperação com os aliados voltará a um grau de confiança tranquilizador. A defesa externa é um dos elementos centrais de qualquer país, e a portuguesa depende por completo da Aliança Atlântica.
Uma segunda razão está ligada à União Europeia. Trump tentou desfazer a União. Para quem crê que o projecto europeu é melhor do que uma Europa dividida em pequenos reinos e repúblicas – é isto que, à escala global, são os países europeus, mesmo os maiores – a eleição de um aliado amigável é uma excelente notícia e pode ajudar a própria União Europeia a resolver alguns importantes problemas internos, além de pôr fim ao mau exemplo americano que alimentava populismos locais.
Em terceiro lugar, o retorno dos EUA ao Acordo de Paris e à Organização Mundial de Saúde são boas notícias para quem está preocupado tanto com os problemas do clima como com os da saúde. Os EUA têm uma palavra fundamental a dizer em qualquer um destes importantes dossiês. Se tanto a questão do clima como a da saúde mundial são difíceis de resolver com a presença da maior potência mundial, muito mais o seriam se ela estivesse, como estava, em sistemática oposição.
Uma quarta razão está ligada à questão da democracia. Donald Trump inclinou a vida política norte-americana, contaminando o mundo ocidental, para um confronto entre amigos e inimigos, fazendo dos seus adversários políticos inimigos. Quando a lógica política se inclina para a tensão amigo-inimigo encontramo-nos à beira de uma situação muito perigosa, que pode facilmente resvalar para um estado autoritário ou, em casos mais extremos, para a guerra civil. O discurso moderado e conciliador de Biden é, no mundo actual, uma bênção. Não sendo um Messias, não é pouco o que Biden pode trazer.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
A Garrafa Vazia 31
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Simulacros e simulações (4)
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
O trumpismo como sintoma
Apesar ter sido dada a ordem de transição de poderes nos
EUA, estamos ainda longe da certeza de que não será Donald Trump que continuará
na Casa Branca. Os processos de validação de resultados nos EUA são obscuros e
a democracia americana está muito longe da perfeição com que a pintam. Na
verdade, ela tem funcionado, no que diz respeito à Presidência, baseada num
acordo de cavalheiros, em que os derrotados, mesmo que tenham bastante mais
votos (uma bizarria americana para evitar a eleição directa de um cargo
uninominal, como o de Presidente), aceitam com desportivismo e espírito
democrático as regras do jogo. O problema é que pode chegar à presidência quem
não seja cavalheiro, não tenha espírito desportivo e não nutra especial
respeito pela democracia.
A vitória de Trump há quatro anos, o apoio que manteve durante o mandato e a excelente votação que obteve, apesar de derrotado, tiveram o condão de revelar uma doença que corrói os sistemas democráticos, mesmo aqueles mais antigos e consolidados. A política não é por natureza uma coisa civilizada e racional, mesmo que ela tenha sido idealizada como tal por alguns dos mais importantes pensadores. Ela pressupõe sempre um combate duro entre interesses, paixões e ideias. O que a democracia faz é civilizar esse combate, tornando-o um jogo, onde o espírito desportivo impõe regras tácitas, em que o que ganha não humilha o que perde, e este aceita os resultados com um sorriso. Este jogo de cavalheiros tem o condão de operar a dissimulação das paixões e interesses que movem a massa e os actores. Essa dissimulação é uma coisa boa, pois evita a violência e a propagação do ódio.
A emergência do trumpismo, com o seu assinalável êxito dentro e fora dos EUA, torna patente que uma parte da população dos países democráticos começa a afastar-se da democracia e aspira a regimes autoritários como aqueles que vigoram na Turquia, no Irão, na Rússia e, pasme-se, na Venezuela, ou, mesmo na União Europeia, na Polónia e na Hungria. As pessoas predispõem-se a acreditar nas mentiras mais manifestas, desde que o chefe do seu bando alcance ou permaneça no poder. As regras cavalheirescas da democracia deixaram de impressionar os descamisados, essas almas preenchidas pelo ressentimento e ansiosas de vingança contra um regime que lhes ofereceu a liberdade e, mais que qualquer outro, a possibilidade de mostrarem o que valem. A sua fidelidade a personagens tóxicas, para não dizer luciferinas, não é mais do que um exercício compensatório da sua frustração existencial que o espelho democrático não lhes permite ocultar. A democracia liberal corre graves riscos.
[A minha crónica em A Barca]
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
Nocturnos 40
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
Sonhos numa noite de Verão 25
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| Yale Joel, American travelers building a sand replica of France’s medieval abbey at Mont-Saint-Michel in the background, 1948 |

















