sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Descrições fenomenológicas 61. O mosteiro

Ellsworth Kelly, Shadows Under a Balcony, 1950

No chão desenha-se ainda um caminho de terra batida. A humidade e o frio compactaram-na, tornando-a mais dura sob os pés cautelosos que, por vezes, a pisam. Aqui e ali, descortinam-se pequenas poças. Uma água suja e cansada, quase sólida, onde repousam folhas mortas, pedras, pequenos ramos secos. O resto, porém, está coberto pela brancura irisada da neve, um espelho imaculado que reflecte o mundo. Não há nela pegadas humanas ou de animais, pois uma ordem severa impõe uma disciplina estrita de respeito pela vastidão do manto branco. Um castanheiro antigo retorce-se despido. Sobre os seus ramos amontoam-se flocos que fazem lembrar pequenas aves brancas pousadas na madeira escurecida pelo Inverno. O tronco, em baixo, é rodeado por um banco circular de granito, onde, nas estações mais amenas, não é inabitual encontrar ali alguém sentado, quase sempre em silêncio, evadido da frivolidade das conversas que animam o mundo. A alguns metros da árvore, vindo do tempo da fundação, há um velho fontanário de pedra, de onde sai uma água cristalina e gélida que cai em borbotões na pia circular, para depois se evadir, formando um pequeno regato que se precipita encosta abaixo. Num dos edifícios, o mais recuado, a capela, a neve amontoada da última noite desliza devagar pelas abas negras do telhado e precipita-se no pátio com um ploc-ploc surdo. Sobre o pórtico, uma estátua de um santo enfrenta a invernia com decisão, indiferente aos humores do clima ou aos pássaros que o escolhem como poiso temporário, para ali ganharem energia e se alçarem aos céus. Sob as arcadas do edifício principal, um coro de monjas, ocultas em seus hábitos castanhos com grandes golas brancas, enfrenta o frio e canta. A voz aguda e cristalina penetra na montanha e eleva-se às esferas celestes, entoando um requiem que suspende o tempo e deixa entrever, na luz que se desprende das velas, o sinal de uma eternidade quase palpável que se estende pelo mosteiro e transborda num eco sem fim pelas encostas íngremes e pelas florestes onde dormem os animais selvagens.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Ernst Jünger, Sobre as Falésias de Mármore

Publicado em 1939, Sobre as Falésias de Mármore é o romance mais conhecido de Ernst Jünger. A sua natureza enigmática e marcadamente simbólica permite ver nele uma alegoria sobre a emergência dos totalitarismos. Há quem o veja como uma denúncia do nazismo em clara ascensão e já no poder há vários anos – apesar do romance nunca ter sido proibido pelo regime nazi e ser bastante lido por agentes desse regime – e há quem o veja como uma referência ao estalinismo. O autor nunca foi muito claro, dizendo apenas que existiriam vários referentes possíveis para a figura do Couteiro-Mor. No entanto, e apesar dos acontecimentos da Noite de Cristal terem sido um motivo desencadeador da obra, talvez seja mais indicado ler o romance como o resultado de um cruzamento entre as experiências existenciais do autor e as suas obsessões espirituais, em vez de o entender apenas como uma desconstrução dos regimes totalitários que nasceram na primeira metade do século XX.

Tanto o espaço como o tempo do romance são simbólicos. A obra não se enraíza nem na Geografia política nem na História dos homens, mas num espaço imaginário e num tempo que parece resultar de uma síntese de várias épocas históricas. Não seria descabido ver, na atopia e na acronia, a criação de um laboratório onde são feitas experiências de pensamento sobre a natureza dos homens e das sociedades, da sua degradação e da ascensão do terror. A personagem central e o seu irmão Otão vivem ambos num ermitério. Ex-combatentes de uma guerra anterior ao tempo da narrativa, a guerra de Alta Plana, dedicam-se agora à botânica. Estudam a flora da região onde habitam, contemplando-a, registando-a, entregando-se assim a uma vida de contemplação e de estudo. Estas figuras combinam, na atitude e modos de vida, os arquétipos medievais do aristocrata guerreira e do monge contemplativo. Foram homens de acção e são, agora, contemplativos. É esta dupla natureza que lhes permite ver a emergência do mal no país aprazível onde se acolheram para se dedicarem aos seus estudos.

Para além de Alta Plana, situada no outro lado do mar, o espaço geopolítico é composto pela Marina, onde vivem os irmãos, terra de grandes vinhas e de civilização refinada, a Campana, zona de pastores, mais rude, e a Mauritânia, uma potência obscura e poderosa, fomentadora da guerra e da desordem. O que a Mauritânia, na verdade, ameaça é a civilização e o requinte, a vida pacífica fundada na convivência entre os homens, no respeito que entretêm pela diversidade. O que preocupa o autor é a fragilidade da civilização perante a subida ao poder da barbárie. Os mauritanos representam claramente esse mundo bárbaro em ascensão na primeira metade do século XX, as forças mais negras e odiosas que habitam o homem. Sobre as Falésias de Mármore fala da impotência da civilização perante a força despótica de homens despidos de qualquer piedade, para os quais apenas a dominação violenta faz sentido.

O Couteiro-Mor, personagem enigmática que nunca é avistada no romance, é o chefe das hordas bárbaras. Não há descrições físicas dele, subsistindo apenas algumas referências ao carácter impiedoso e violento, embora não destituído de racionalidade instrumental e estratégica. O Couteiro-Mor é, pela sua ausência constante, uma verdadeira omnipresença. Este jogo narrativo de uma omnipresença ausente tem o condão de sublinhar não só o carácter enigmático do chefe bárbaro, mas também de o configurar como uma ameaça ao mesmo tempo bem real e imponderável. É construída como se tivesse atributos divinos – ou diabólicos – pois sendo invisível, é sentida em toda a parte a sua presença ameaçadora. Esta máscara feita de traços tão pouco humanos transforma o Couteiro-Mor num arquétipo, o arquétipo de uma nova forma de poder que ameaça a ordem racional do mundo. Não é que antes do século XX não tenham existido tiranos e déspotas, não é que a violência não fosse um elemento central na vida política, não é que a ameaça de invasão e destruição não tenha sido uma experiência viva do passado. No entanto, o Couteiro-Mor encarna um poder mais profundo, mais baixo e mais diabólica. Ele simboliza a emergência do poder das trevas na Terra.

Se se meditar no estilo narrativo adoptado por Jünger, na claridade da narrativa, na beleza cultivada, no equilíbrio e profundidade das descrições, mesmo na narração dos acontecimentos dramáticos e violentos que conduzem ao desfecho do romance, em tudo isso se encontrará um contraponto à irracionalidade desse poder ameaçador. Esse contraponto não é, no entanto, uma racionalidade ao modo do Iluminismo. É antes uma racionalidade como a que se manifestou na Filosofia grega ou nos grandes pensadores medievais, como se o texto romanesco fosse uma emanação de um logos humano que ainda não tinha usurpado para si o lugar do logos divino. Talvez esteja aqui uma chave para ler o romance. O combate à irracionalidade para ser vitorioso necessita de uma reordenação do logos, recolocando tanto o humano como o divino nos lugares que a Modernidade e o Iluminismo subverteram.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Perfis 10. O pintor

Yousuf Karsh, Pablo Picasso, 1954
O pintor não pinta. Descansa a cabeça, encostando, com leveza, o rosto à mão. O que vê diante de si não é o que lá está, mas aquilo que ainda não veio à existência. O pintor pensa, mas não pensa como os outros homens. Os seus pensamentos são feitos de luz e cor, de linhas e figuras. Tudo isso se entrelaça mesmo por detrás dos olhos, num sítio guardado por muralhas inexpugnáveis. Se do olhar se soltam chispas, não é porque ele queira incendiar a casa e o mundo, mas porque um fogo arde dentro do seu corpo, e este é demasiado frágil para conter as labaredas. Então, o fogo expande-se para dentro de uma tela, ganha cor, deixa escapar raios de luz, sombreia em linha perfeitas, que logo se quebram, tornando-se um labirinto. Nesse momento, o coração do pintor é um labirinto de labaredas, de paisagens devastadas pelo ócio de nelas pensar. Não como os outros homens pensam, mas com pensamentos feitos de imagens em movimento. O pensamento do pintor é uma sessão de animatógrafo. Em turbilhão, de dentro dele, saem imagens que se projectam na tela, ganhando e perdendo contornos, fazendo e desfazendo mundos, criando retratos que logo se contorcem para que, na arbitrariedade das linhas, se descubra a senda que leva à verdade. O pintor guarda a verdade do mundo na ponta dos dedos com que pega nos pincéis para se tornar um médium entre o mundo, aquele que só ele descobre no fogo do sentimento, e os olhos daqueles cujos pensamentos não são feitos nem de luz, nem de cor, nem de linhas, nem de figuras. O pintor descansa a cabeça e descansa as mãos, pois são árduos os trabalhos que esperam a uma e a outras, assim que o gongo soar para que ele se dirija ao ringue e, diante da tela, defronte o adversário que se esconde dentro de si. 
 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Simulacros e simulações (6)

John Gutmann, "Yes, Culumbus did discover America”, San Francisco, 1938

Nunca devemos pôr de lado a ironia existente nos actos humanos. É um jogo que anima o espírito, uma simulação para provocar o riso, um desfazer de ilusões que o tempo deposita em cada um. Exceder-se na comunicação para que nenhum receptor receba a mensagem. Cobrir o silêncio de palavras para que nenhuma seja escutada. Evitar a comunicação através de um simulacro de comunicação.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

A Garrafa Vazia 33

Lee Krasner, Abstract #2, 1946-48
A pele crestada
do desejo
arde sem pressa,
para que a dor
se entranhe
e traga com ela
o cobre do coração
envolto
no odor do ódio.

Agosto de 2020

 

domingo, 13 de dezembro de 2020

Nocturnos 42

Walter Sanders, Hamburg Essay, 1951

As estrelas do céu caíram aos milhares sobre a terra e refulgem em todos os cantos do mundo. Cintilam nos faróis dos carros, nos candeeiros da iluminação eléctrica, no néon que anuncia o comércio, nas lâmpadas que trazem luz aos moradores das grandes colmeias humanas ou das pequenas luras onde, os mais pobres, se abrigam. O céu enegreceu, enquanto a terra oferece aos olhos, todas as noites, mil constelações incertas e fugidias. 

sábado, 12 de dezembro de 2020

Sonhos numa noite de Verão 26

Norman Parkinson, Wedding outfits by Victor Stiebel, 1938
Murmuravam e riam. Enormes chapéus ocultavam-lhes os rostos. A princípio julguei-os risonhos e escarninhos, mas de súbito compreendi que neles não havia jovialidade, antes uma sisudez mortal, uma implacabilidade que não era humana. Tratavam de alguma coisa que me dizia respeito. Parecia haver uma dissensão sobre um fio. A que o tece e a que o cuida opunham-se à outra, aquela que o corta. Esta dizia está na hora, as outras exclamavam que estava enganada, que trocara o livro. O que interessa isso? Vou cortá-lo, ninguém nos pede contas se ele morrer mais cedo. As outras riram-se. Estremeci ao ouvi-las e comecei a correr por um túnel sem luz e sem fim. Acordei a gritar. Ainda me ouvi: as parcas, as parcas vêm buscar-me. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Beatitudes (34) A liberdade

Hiroshi Hamaya, Kayenta, Arizona, USA, 1967

As terras áridas das quais apenas um ou outro cacto faz moradia, planícies de que a vista não alcança o termo, uma estrada que liga um a outro nada. Na solidão da paisagem, o viajante descobre a liberdade de ir e vir sem que a mão de alguém se interponha entre o sonho e a deambulação, entre o desejo e o seu objecto, entre o tempo que passa e o caminho percorrido.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Simulacros e simulações (5)

Ralph Gibson, The sketch, 1975
O destino de tudo o que vem à existência é singular. Começa como um esboço, um exercício hesitante, depois cresce, ocupa o seu lugar, durante o tempo que lhe for determinado, para logo se tornar imagem, sombra projectada no fundo da caverna, simulacro no qual já nada existe.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

A Garrafa Vazia 32

Fernando Calhau, sem título #423, 1979
Não vale a pena
cerzir a ferida.
A dor que doa
e o sangue soluce
na úlcera da pele.
Nasçam rios
de água
tinta de silêncio
onde nas núpcias
da noite
me hei-de afogar.

Julho de 2020

 

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

A recandidatura de Marcelo e a semidemocracia

Riccardo Schweizer, ¡Ay que trabajo me cuesta quererte como te quiero!, 1994

O leitor consegue imaginar uma eleição presidencial nos EUA em que os Democratas ou os Republicanos – os grandes esteios do regime americano – não apresentem um candidato sério para disputar as presidenciais? Não, não consegue. É verdade que o regime norte-americano é presidencial e isso implica uma grande luta pela presidência. Agora que Marcelo Rebelo de Sousa confirmou a sua recandidatura é necessário olhar para uma das perversões que se instalou na democracia portuguesa. O nosso regime é semipresidencial e também, na prática referente à Presidência, semidemocrático.

O problema coloca-se na estratégia dos grandes partidos perante um Presidente de cor diferente e de popularidade segura. Desistem de apresentar candidato que possa tentar disputar a eleição ou, então, apresentam um candidato que tem muitas hipóteses de perder por grande diferença, para não incomodar o recandidato, como foi o caso de Ferreira Amaral contra Jorge Sampaio. A situação foi ainda pior nas recandidaturas de Mário Soares e de Cavaco Silva. Será também o caso da recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Os socialistas desistiram democracia e de procurarem uma alternativa séria ao actual incumbente. 

Marcelo vai defrontar um conjunto de candidatos – nomeadamente, os de esquerda, mas não só – que se candidatam não pela conquista da Presidência, mas por questões de afirmação partidária ou pessoais. Seria, em qualquer circunstância, difícil derrotar o actual presidente, mas a democracia – assente na ideia de concorrência – morre sempre um pouco com decisões de não comparência. Marcelo Rebelo de Sousa, como Mário Soares ou Cavaco Silva, não tem culpa, mas se se subestima – como se está tornar hábito em Portugal –, de dez em dez anos, a apresentação de alternativas, com possibilidade de disputar a eleição, a um lugar tão importante como a Presidência da República, então vivemos num regime semipresidencial que também é uma espécie de semidemocracia ou uma democracia que só é levada a sério se der jeito no momento. Perder também faz parte do jogo democrático. Este, porém, sobrevive mal se não houver real concorrência em cada eleição.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Nocturnos 41

Henryk Weyssenhoff, A mysterious song, 1921

Um pássaro canta e a canção da noite ergue-se da terra sonâmbula para um céu negro pontilhado de revérberos de prata. Dança por instantes diante dos astros, para cair lentamente, como um grito vindo do além, sobre os seres velados pelo cobertor do cansaço.

domingo, 6 de dezembro de 2020

Frans Eemil Sillanpää, Santa Miséria

Ao autor finlandês foi atribuído o prémio Nobel da Literatura em 1939, ano em que começou a segunda guerra mundial e também a guerra entre a URSS e a Finlândia. O romance, Santa Miséria, foi publicado em 1919, pouco tempo depois de ter terminado a guerra civil finlandesa ocorrida em 1918. Esta, um reflexo da implosão da Rússia Czarista e da subsequente tomada do poder pelos comunistas, opôs também ela, tal como a guerra civil russa, brancos e vermelhos, conservadores e sociais democratas revolucionários. É nela e na vitória, na Finlândia, dos Brancos que o protagonista encontra a consumação do seu destino. A obra de Sillanpää possui quatro linhas estruturantes. A fluidez da identidade, a configuração complexa das pessoas simples, o paralelismo entre a história do indivíduo e a da comunidade e, por fim, a história do indivíduo como cumprimento de um destino e a submissão à estrita necessidade.

O romance começa com estas palavras: Jussi ou Juhá, ou Janne Toivolá – nome de baptismo, segundo o registo, João Abraão Benjaminpoika – era um pobre diabo de aspecto repugnante. A primeira tensão que atravessa o romance está determinada já. Um pobre diabo, ainda por cima de aspecto repugnante, recebe múltiplas identificações, para além daquelas que recebeu pelo baptismo. Essas identificações não ficam apenas pelo nome própria, o qual, ao longo da narrativa, vai variando entre Jussi, Juhá e Janne (não é clara para quem não conhece a língua se serão variações de um mesmo nome), mas atinge também o que poderíamos chamar o apelido. Não tendo nome de família – Benjaminpoika significa apenas filho de Benjamin, segundo o tradutor – os camponeses recebiam o nome da quinta que habitavam. Também o herói de Santa Miséria vai mudando de nome conforme se vai deslocando pelas várias quintas onde viveu, sendo sucessivamente Nikkila, Tuorila e Toivolá. Estas metamorfoses onomásticas são mais do que meros registos de ocorrências, mas indicações de que na fluidez da identidade se esconde uma maior complexidade do que na referência de pobre diabo de aspecto repugnante. Quando No final da terceira página, o narrador assegura isso mesmo quando, comentando o destino do protagonista dado a conhecer logo no início do romance, que Jussi Toivolá e o oficial são conhecimentos antigos… Outrora, num lugar qualquer deste mundo, aquele, por uma noite límpida e pura, matou Jussi. Fê-lo sem reparar, sem atentar no homem extraordinário que era, no fundo, Jussi.

Se se comparar esta personagem de Silanpää com personagens do romance neo-realista ou do realismo social, nota-se uma diferença acentuada na sua construção. Não se trata nem de uma idealização de um explorado nem um estereotipo de um revoltado. Pelo contrário, o pobre diabo tem uma psicologia complexa, com claros e escuros, que ultrapassa em muita a simplicidade que se costuma atribuir às personagens de origem popular. A pobreza e as dificuldades que teve de enfrentar, os desaires da vida e as partidas do destino não são meros motivos de alienação, mas de engrandecimento da sua personalidade, que se vai transformando durante toda a vida. Quase que se poderia dizer que Santa Miséria é um romance de formação ao longo da vida, pois Jussi Toivolá não deixa, continuamente, de se tornar em algo mais complexo do que era anteriormente. Sillanpää recebe o Nobel devido à profunda compreensão que a sua obras ostenta em relação aos camponeses da Finlândia. Este romance é um claro exemplo dessa justificação do Nobel.

A narrativa romanesca, dividida em seis capítulos, acompanha a vida da personagem desde o seu nascimento até à morte, cerca de sessenta anos depois. O autor, todavia, inscreve essa história individual num pano de fundo muito mais largo, o da história da Finlândia, desde as grandes fomes que a assolaram na época da infância de João Abraão até à guerra civil de 1918. Não se trata, porém, de um romance que se possa enquadrar no género denominado como romance histórico, mas do drama de um indivíduo que vive no seu tempo histórico e que está sujeito às contingências da história da comunidade, as quais surgem à sua consciência não como meras contingências mas, antes, como estrita necessidade da qual não pode escapar. Este enraizamento na história é mediado por um outro enraizamento, o do camponês, que Jussi foi desde o nascimento até à morte, na natureza. Ele não está apenas inserido no tempo, mas também no espaço, naquilo que este espaço tem de misterioso e de sedutor. A relação da vida do indivíduo, do herói da narrativa, com o tempo histórico é sempre compreendida na sua relação com o espaço onde vive e do qual vai recebendo sucessivas denominações, como se cada quinta fosse uma instância onde a natureza se deixa tocar pelas mãos do homem.

A estratégia narrativa transforma o romance numa enorme analepse. Nas primeiras três páginas, é narrada a morte do protagonista, a sua execução sob a ordem de um oficial branco. Esta opção narrativa tem um efeito que por vezes passa despercebido ao leitor. Se o desenlace só é conhecido no fim, cria-se a ilusão de que as personagens possuem livre-arbítrio e que o futuro, apesar das peripécias, estará aberto, até que o desfazer do nó tem o condão de o fechar. A transformação da narrativa numa analepse tem o efeito contrário. O leitor sabe que o destino de Jussi Toivolá está selado. Nada está em aberto. Aquilo que o leitor vai sabendo sobre a vida do herói é os passos que necessariamente o conduziram ao fim já conhecido. Todas as metamorfoses que a personagem sofre são necessárias e não está na mão dela querê-las ou evitá-las. O extraordinário homem que ele era, esse pobre diabo repugnante, deriva então da sua conformação à necessidade que a natureza – essa necessidade imposta pela natureza revela-se logo no início com as grandes fomes – e a história, como se vê no caso da guerra civil, lhe impõem. 

sábado, 5 de dezembro de 2020

A importância de Joe Biden

A vitória de Joe Biden é um acontecimento que, em princípio, terá importantes e benévolas consequências para nós portugueses e europeus. Antes de explicar as razões para tal afirmação, convém sublinhar que os EUA não deixarão de ser o que eram e que Biden não representa qualquer devaneio utópico no interior da grande nação americana, como poderia ser o caso do democrata Bernie Sanders. Aliás, Biden surge como o contrário da utopia, neste caso da utopia da direita populista organizada em torno de Donald Trump.

A vitória de Biden é importante para os portugueses, em primeiro lugar, por causa da NATO. Toda a nossa defesa está assente na NATO e sem ela não é visível como Portugal se poderia defender de eventuais ameaças externas, que podem surgir a qualquer momento. O desprezo com que Trump tratou a NATO foi, para nós, um perigo. Com Biden, a cooperação com os aliados voltará a um grau de confiança tranquilizador. A defesa externa é um dos elementos centrais de qualquer país, e a portuguesa depende por completo da Aliança Atlântica.

Uma segunda razão está ligada à União Europeia. Trump tentou desfazer a União. Para quem crê que o projecto europeu é melhor do que uma Europa dividida em pequenos reinos e repúblicas – é isto que, à escala global, são os países europeus, mesmo os maiores – a eleição de um aliado amigável é uma excelente notícia e pode ajudar a própria União Europeia a resolver alguns importantes problemas internos, além de pôr fim ao mau exemplo americano que alimentava populismos locais.

Em terceiro lugar, o retorno dos EUA ao Acordo de Paris e à Organização Mundial de Saúde são boas notícias para quem está preocupado tanto com os problemas do clima como com os da saúde. Os EUA têm uma palavra fundamental a dizer em qualquer um destes importantes dossiês. Se tanto a questão do clima como a da saúde mundial são difíceis de resolver com a presença da maior potência mundial, muito mais o seriam se ela estivesse, como estava, em sistemática oposição.

Uma quarta razão está ligada à questão da democracia. Donald Trump inclinou a vida política norte-americana, contaminando o mundo ocidental, para um confronto entre amigos e inimigos, fazendo dos seus adversários políticos inimigos. Quando a lógica política se inclina para a tensão amigo-inimigo encontramo-nos à beira de uma situação muito perigosa, que pode facilmente resvalar para um estado autoritário ou, em casos mais extremos, para a guerra civil. O discurso moderado e conciliador de Biden é, no mundo actual, uma bênção. Não sendo um Messias, não é pouco o que Biden pode trazer.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A Garrafa Vazia 31

Eduardo Gruber, Actividad de la Ciudad Portuaria III, 1990
Para ti todo o tempo
é tempo
de indulgência.
Empurras a vida
com a abóbada
do ventre
e fazes contas.

Nada tens a haver
a não ser
a dor da dívida,
os destroços
do dia que findou
e as quimeras
queimadas no quintal.

Maio de 2020

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Simulacros e simulações (4)

Man Ray, Untitled, 1930

Na quietação trazida pelo véu, o corpo simula-se abandonado, perdido de si, talvez esquecido da música do desejo, como se a derrota da memória fosse um corte com o império do passado para, assim liberto, se entregar àquele que souber a cifra oculta na fímbria da pele.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O trumpismo como sintoma

Apesar ter sido dada a ordem de transição de poderes nos EUA, estamos ainda longe da certeza de que não será Donald Trump que continuará na Casa Branca. Os processos de validação de resultados nos EUA são obscuros e a democracia americana está muito longe da perfeição com que a pintam. Na verdade, ela tem funcionado, no que diz respeito à Presidência, baseada num acordo de cavalheiros, em que os derrotados, mesmo que tenham bastante mais votos (uma bizarria americana para evitar a eleição directa de um cargo uninominal, como o de Presidente), aceitam com desportivismo e espírito democrático as regras do jogo. O problema é que pode chegar à presidência quem não seja cavalheiro, não tenha espírito desportivo e não nutra especial respeito pela democracia.

A vitória de Trump há quatro anos, o apoio que manteve durante o mandato e a excelente votação que obteve, apesar de derrotado, tiveram o condão de revelar uma doença que corrói os sistemas democráticos, mesmo aqueles mais antigos e consolidados. A política não é por natureza uma coisa civilizada e racional, mesmo que ela tenha sido idealizada como tal por alguns dos mais importantes pensadores. Ela pressupõe sempre um combate duro entre interesses, paixões e ideias. O que a democracia faz é civilizar esse combate, tornando-o um jogo, onde o espírito desportivo impõe regras tácitas, em que o que ganha não humilha o que perde, e este aceita os resultados com um sorriso. Este jogo de cavalheiros tem o condão de operar a dissimulação das paixões e interesses que movem a massa e os actores. Essa dissimulação é uma coisa boa, pois evita a violência e a propagação do ódio.

A emergência do trumpismo, com o seu assinalável êxito dentro e fora dos EUA, torna patente que uma parte da população dos países democráticos começa a afastar-se da democracia e aspira a regimes autoritários como aqueles que vigoram na Turquia, no Irão, na Rússia e, pasme-se, na Venezuela, ou, mesmo na União Europeia, na Polónia e na Hungria. As pessoas predispõem-se a acreditar nas mentiras mais manifestas, desde que o chefe do seu bando alcance ou permaneça no poder. As regras cavalheirescas da democracia deixaram de impressionar os descamisados, essas almas preenchidas pelo ressentimento e ansiosas de vingança contra um regime que lhes ofereceu a liberdade e, mais que qualquer outro, a possibilidade de mostrarem o que valem. A sua fidelidade a personagens tóxicas, para não dizer luciferinas, não é mais do que um exercício compensatório da sua frustração existencial que o espelho democrático não lhes permite ocultar. A democracia liberal corre graves riscos.

[A minha crónica em A Barca]

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Nocturnos 40

Frank Eugene, The sphinx of Giza at midnight, Egypt, 1901
Não é o enigma da esfinge que brota da noite tocada pelos raios lunares, é o mistério da meia-noite que se ergue da esfinge e voa para o secreto resplendor da lua. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Sonhos numa noite de Verão 25

Yale Joel, American travelers building a sand replica of France’s medieval abbey
at Mont-Saint-Michel in the background,
1948
O capítulo da ordem tinha-se reunido. Acusavam-me de heresia. Sempre fora fiel aos princípios que tinha adoptado na hora que entrara naquela casa. Apenas os adaptava aos noviços. O superior começou o interrogatório, havia ira na sua voz. Continuou por longas horas. Eu estava exausto e queria descansar. A certa altura, levantou-se um grande burburinho. O capítulo tinha-se dividido e as partes disputavam entre si. Do insulto passaram à agressão. Um enorme tumulto. Aproveitei e fugi, alcancei, sem saber como, a rua. Estava livre. Na areia, havia duas mulheres. Uma disse-me: escusas de fugir. Estás condenado. Tremi de medo e de cólera. A outra acrescentou: com qual de nós vais casar? Acordei sobressaltado, ainda a manhã não tinha chegado.

domingo, 29 de novembro de 2020

A Garrafa Vazia 30

Arpard Szenes, Castille, les chemins, 1960-62
Toma o anti-histamínico,
a febre dos fenos
ou as feridas
de amor
serão saradas.

Como roupa lavada,
haverão de pender
do arame
suspenso nas roldanas
cruas da carne.

Dezembro de 2019