quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A dança do tempo

Wilhelm Gause - Baile da corte em Viena (1900)

Olhar um quadro como este fora do seu contexto epocal é uma vantagem relativamente à visão na altura. Aquilo que se perde da experiência viva é compensado pela revelação que o tempo e a história proporcionam. Isto permite desvendar aquilo que nem o artista nem os figurantes poderiam saber. Para quadro que retrata um baile da corte, este dá pouca atenção, em aparência, à dança em si mesma. Pelo contrário, a generalidade das pessoas conversam, observam, parecem expectantes. O centro do quadro é ocupado pelo imperador austro-húngaro Francisco José I (o bigode e as suíças não enganam) rodeado de damas da corte. O poder está firme e no centro do mundo. Estamos em 1900 e nada parece contestar a solidez do Império. Contudo, há no quadro um elemento dissonante, o par que dança. Há nele todo um desafio à ordem estabelecida. Contrariamente aos outros figurantes, estes não estão parados. Deslizam. E, no seu deslizar, disputam a centralidade do quadro ao Imperador ao mesmo tempo que se afastam dele.

Se para um leigo, como eu, na história austro-húngara foi possível identificar o Imperador, isso já não acontece com o par dançante. Será, por certo, gente muito importante, mas não para mim. Pergunto: quem dança ali? Passado mais de um século, só há uma resposta: o tempo. O par que dança, que parece deslizar e afastar-se do núcleo central da Corte, é a encarnação do tempo. É a presença irreversível do fim do Império e dos bailes da Corte  de Viena. Esse fim ainda vem longe. O Império desaparece em 1918, na sequência da primeira Grande Guerra, e o Imperador morre em 1916. O quadro, que parece retratar o carácter eterno, estático, da situação política figurada no Imperador, traz nele o sinal de que tudo o que se vê no Baile da Corte de Viena está já condenado. O par que dança não tem consciência de que, ao dançar, anuncia o fim daquele mundo. Eis a suprema ironia, o baile que celebrava a solidez daquele tipo de vida é, passados tantos anos, susceptível de simbolizar a sua decadência. O tempo revela a verdade que se escondia naquela hora.  Ele tece e destece o mundo sem nunca ter consciência do que faz. Limita-se a dançar e na sua dança a ordem desordena-se e o caos ganha contorno, figura e torna-se cosmos. Da desagregação do Império austro-húngaro nasceu outro mundo, aquele que veio até aos finais dos anos 80 do século passado. Um mundo que ainda não estava ali, mas para o qual, dançando, a humanidade se precipitava.