segunda-feira, 15 de abril de 2013

Leituras poéticas - José Bento, Sítios, "Jardins I"

Vincente Van Gogh - The Poet's Garden (1888)

Jardim erguido inteiro ao ser minado
pela agonia do único antes vivo,
que abandonos e despedidas assolaram:
nele corolas assumem rostos idos,
contra um vento que veste olor de adágio
e entoa variações de cores perdidas,
entre sombras que exalam claridade
e restituem ferido o pleno outrora.

Fecham-se os olhos
para lhe serem refúgio derradeiro,
em seu vazio lhe conceder morada.

                                                (José Bento, Sítios, "Jardins I")
 
A palavra inicial do poema remete, de imediato, para uma dos topos fundamentais da cultura ocidental, o éden ou o jardim do paraíso, o qual fomos obrigados, segundo o mito de Adão e Eva, a abandonar. É de abandono e despedidas que fala o poema e fá-lo através da metáfora do jardim. Se nela ecoa o símbolo fundador da nossa cultura, também ressoa a referência à vida vivida. É a vida que se apreende no discurso poético, vida na sua multiplicidade, mas também na sua finitude.A multiplicidade e riqueza da vida são captadas num jogo onde sentidos e sentimentos se cruzam. A visão de "corolas" que "assumem rostos idos", a audição que capta "adágio" e "variações" entoadas, os quais - adágio e variações - se abrem para outras experiências sensoriais que mobilizam o odor (olor de adágio) e a visão (variações de cores perdidas). É deste jogo sinestésico que apreendemos a rica multiplicidade da existência.

Na economia do poema, os jogos sensoriais que nos abrem para a vida estão intercalados por um jogo afectivo onde se combina a dor e o abandono. A agonia do que é vivo mina a vida inteira (Jardim erguido inteiro), uma vida assolada por despedidas e abandonos. É o tema da derrelicção que se torna central na agonia da vida. Não é tanto o processo biológico que nos expulsa do Jardim (do éden), mas o abandono a que estamos sujeitos, por aqueles que se despedem, por aqueles que nos abandonam. Surge uma segunda função dos jogos sinestésicos referidos. Não nos dão apenas a multiplicidade e riqueza da existência, mas abrem-nos a dimensão da memória, pois "restituem ferido o pleno outrora". Todo o mistério que o poema desenha está nesta estranha restituição de uma plenitude que não é plenitude, pois está ferida. Ferida pelo abandono, pelas despedidas, pela expulsão do paraíso.

Se o jardim é a metáfora da vida, os olhos surgem como a metáfora da memória. O vazio gerado pelo fechamento dos olhos torna-se a casa onde a vida já vivida encontra refúgio. Essa vida plena que agonizou e ficou ferida é agora memorável. A sua condição ontológica transformou-se: de existência plena tornou-se em nada, mas um nada que ainda posso ver, pois habita a moradia da memória, tornando-se reminiscência. Aqui encontramos uma segunda referência fundamental à nossa cultura, a reminiscência platónica, a qual despertava o homem para verdadeira vida, aquela que tinha tido no mundo das ideias, o mundo mais real do que este onde existimos. Esse vazio criado pelo fechar dos olhos, através deste jogo referencial à reminiscência, ilumina-se como esse nada que é, recuperando a plenitude ontológica daquilo que ficou ferido e agonizou. O outrora é agora eterno.