domingo, 21 de abril de 2013

O homem, um produto obsoleto

Stanislaw Ignacy Witkiewicz - Confusão geral (1920)

Sim, os que já não podem trabalhar já não têm dinheiro para consumir. É uma espécie de auto-abolição do capitalismo. Numa fábrica faz-se uma camisa em cinco minutos quando anteriormente um artesão precisava de uma hora. Isto significa que há menos trabalho investido na camisa. Numa sociedade racional diríamos "vamos fazer a mesma camisa que anteriormente, mas trabalhando apenas cinco minutos". Mas é o contrário que acontece: obriga-se o operário a trabalhar mais, a fazer mais camisas, e depois é preciso vendê-las. Se se produz cada vez mais, é para contrariar o facto de que em cada mercadoria é investido menos trabalho e portanto a mais-valia é mais reduzida. (Anselm Jappe, Entrevista ao Público de hoje)

Toda a entrevista de Anselm Jappe merece ser lida e meditada. Gostaria de salientar, a partir dela, um dos aspectos centrais do sistema capitalista. Não é apenas  facto de ele conter em si contradições que geram, ciclicamente, crises. Nem é o facto de, hipoteticamente, conter no seu seio aquilo que o poderá destruir. O que é central, como se pode perceber pela citação, é que os seres humanos se tornaram, do ponto de vista das empresas produtoras, redundâncias. O elemento humano é aquilo que qualquer empresário, seguindo a lógica do sistema, quer diminuir ou mesmo abolir. Todo o investimento que é feito nas áreas da computação, da robótica e mesmo da inteligência artificial visam tornar obsoleto o homem. Não se trata já da tradicional obsolescência dos produtos criada pela imaginação humana e pela competição no mercado. O mais curioso de tudo isto é que a obsolecência do homem é a consequência directa de uma modernidade que tomou como preocupação central o homem. De facto, o homem tornou-se para si-mesmo um produto obsoleto.