sábado, 17 de agosto de 2013

A des-simbolização da polítca

Tenho passado nos últimos tempos por múltiplos concelhos do país, todos eles já em plena campanha eleitoral. O que me tem prendido a atenção é aquilo que praticamente não se vê, os símbolos dos partidos. As candidaturas, fundamentalmente as da área dos partidos da governação, tentam ocultar as suas ligações políticas, tentando dar a entender que as gentes locais nada têm a ver com os desmandos dos chefes e das governações. Estamos perante uma verdadeira des-simbolização da pertença política. Algumas notas sobre este processo.

Em primeiro lugar, isto decorre de um equívoco que todos os partidos alimentam. A ideia é simples e parece render votos: nas eleições autárquicas o que está em questão é as pessoas e não as ideologias, como se a ideologia se evaporasse abaixo da disputa pelo Estado central. O que estaria em jogo, seria assim, o suposto mérito dos candidatos. Não haverá políticas autárquicas de esquerda ou de direita, mas melhores ou piores executores de uma política localmente universal. Esta ideia é corrente e funciona para todos os lados. Mas é falsa, pois mesmo ao nível municipal se colocam questões que esquerda e direita divergem na resposta.

Em segundo lugar, existe neste momento, nas candidaturas do PSD, CDS e PS, um incómodo geral por serem partidos responsáveis pelo estado a que se chegou. As candidaturas autárquicas querem mostrar-se puras, imaculadas, sem qualquer responsabilidade pelas penitências que as governações centrais impõem aos pobres cidadãos, como se o domínio autárquico fosse um lugar de pureza e um paraíso político incontaminado e incontaminável. Nada de mais falso, mas os eleitores gostam deste tipo de ilusão, pois confiam na velha manha dos autarcas para dilapidar os dinheiros públicos e beneficiar a "terra".

Por fim, este processo de des-simbolização da vida política é um sintoma da agonia do regime político em que vivemos. Nos dias de grande pujança do regime, os partidos, por norma, orgulhavam-se dos seus símbolos, e estes eram poderosos veículos de identidade, que agregavam os eleitores e os ligavam a uma ideia central, a um projecto imaginário que os levava a formar uma crença sobre o destino da comunidade. No actual quadro, serão muito poucos aqueles que acreditam que os partidos tenham um projecto de futuro para a comunidade. A des-simbolização destas eleições inscreve-se numa ruptura entre a imaginação das pessoas e a possibilidade de crerem num futuro que seja melhor. A des-simbolização das eleições significa que a política deixou de constituir um sítio de esperança, como o foi durante muito tempo.