sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A paisagem desfaz-se


As árvores vão morrendo uma a uma. Quem se interessa pelas coisas da cultura e, em particular, da literatura, vai construindo uma paisagem, uma espécie de floresta composta por múltiplas espécies, por vezes, em aparência, incompatíveis. Vamos envelhecendo e a floresta envelhece connosco, talvez mais rapidamente que nós. Os mais novos raramente os consideramos dignos de  fazer parte daquela velha e sólida paisagem. Um preconceito. As primeiras perdas sentidas foram nesse ano aziago de 1978. Entre Junho e Agosto, morreram dois grandes poetas, Jorge de Sena e Ruy Belo. Recordo-me bem de ter tido a sensação de uma grande injustiça. Em Outubro, chegou a notícia da morte de Jacques Brel, que eu descobrira algum tempo antes e que me deixara perfeitamente fascinado. Depois, com o tempo, vieram as mortes daqueles que constituíam a nossa paisagem. Augusto Abelaira - quem lerá hoje em dia Augusto Abelaira? -, Carlos de Oliveira - poeta e romancista de excepção -, Vergílio Ferreira - aquele de quem estive ideologicamente mais próximo -, Sophia de Mello Breyner Andresen, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Helena Vieira da Silva, Eugénio de Andrade, Eduardo Prado Coelho e muitos outros que, a meus olhos, tinham mais ou menos brilho, mas que faziam parte dessa paisagem encantada que me fez ser o que sou. Hoje soube que também Urbano Tavares Rodrigues partiu. Era uma das velhas árvores dessa floresta. O tempo tem um imperativo que não é o do coração dos homens. A paisagem, a minha paisagem, desfaz-se.